sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PARA OS BEM COMPORTADOS


Por Francisco Costa.

Se te disserem política não se discute,
Permanece atento, ligadíssimo:
Querem te tomar o prato,
Para mais sobrar.

Se te disserem religião não se discute,
Redobra a vigilância, ligadíssimo:
Este se julga porta voz da verdade,
Alternativa única entre alternativas,
E se não discute é por medo, temor
Da fragilidade das próprias convicções.

Todo aquele que se recusa à discussão,
Blinda-se nas próprias desconfianças
Erigidas certezas, é frágil e fraco.

Os tiranos agradecem a disciplina,
Os lobos rejubilam a inofensibilidade
Da ovelha quieta e calada, presa fácil
Para os que discutem o que fazer
Contigo, cardápio em fogo brando,
Esperando ser a refeição.

Se tua boca só serve para comer
Pouco comerás, perdido
Em orações de estranhos propósitos
E sorrisos sem motivo.

sábado, 26 de novembro de 2016

OS COXINHAS DE LÁ MORRERAM AFOGADOS



Um coxinha, essa anomalia que substituiu o cérebro por um HD externo, da mídia, veio ao meu chat, navegando em desaforos, para me perguntar porque exalto Cuba.
Meu caro coxinha!

Imagine um país sem shoppings, sem Black Friday, sem roupas de etiqueta, restaurantes de luxo, igrejas promovendo a salvação imediata e curas milagrosas, carros de último modelo, mansões, iates... Uma merda, não é mesmo?

Agora imagine um país onde TODOS fazem as três refeições diárias, TODOS estudam ou estudaram, TODOS têm assistência médica e odontológica, TODOS têm consciência, e os órgãos internacionais classificam esse país como modelo nos sistemas de saúde e educação.

Para que isso seja possível é necessário que não haja uma maioria trabalhando para sustentar os que consomem nos shoppings, aproveitam o Black Friday, vestem roupas importadas, freqüentam restaurantes de luxo, passeiam em seus carrões e iates de luxo e depois vão para suas mansões, descansar, ou para as igrejas, orar, para agradecer a Deus a graça alcançada.
Você falou mais, que Cuba é um país ateu.

Não! É tão laico quanto o Brasil. A diferença está em que lá não existe a profissão de líder religioso, alguém que vive da fé alheia, fazendo fortuna.

Lá o sujeito é médico, engenheiro, pedreiro ou carpinteiro durante a semana, e no final da semana, depois de ter dado o seu quinhão para a sociedade, pode escolher se vai à praia, se vai encher a cara de rum, jogar beisebol, visitar um parente ou ir para uma igreja ou macumba, lá chamada de santaneria.

Lá, liderança religiosa como atividade principal é sinônimo de charlatanismo e vagabundagem.
Depois você apontou as filas. É verdade, lá há fila para quase tudo.

Não sei onde você mora, coxinha, mas imaginemos que no seu bairro morem cinco mil pessoas.
O açougueiro do seu bairro compra carne suficiente para quinhentos fregueses, para não encalhar, e a carne é vendida sem filas.

Já em Cuba forma-se uma fila de cinco mil pessoas, e todos compram a carne.
Aqui o poder econômico determina quem vai comer carne. Lá, a ordem de chegada na fila determina quem vai comer carne primeiro, entre TODOS.

E vem você com a conversa que em Cuba não há liberdade.

O que é a liberdade, o direito de ambicionar uma jóia e comprar uma bijuteria, desejar ir à Europa e não ter dinheiro para tomar um ônibus e ir ao bairro vizinho, sonhar bacalhoada e comer ovo frito, consultar o índice da Bolsa, o mercado de capitais, a cotação do dólar, como quem lê livro de ficção?
Ser livre é ter o direito de admirar o iate alheio, a mansão alheia, as viagens alheias, o carrão alheio, sabendo que nunca terá igual, ou desejar o que está ao seu alcance porque ao alcance de todos, igualitariamente?

Lá, não procure por joalherias, agências de câmbio, corretoras de valores, shoppings... Os cubanos não conhecem isso. Como não pode ser para todos, não é para ninguém.

Achei interessante como você cobrou de Cuba (e de Fidel), como se fosse um país gigantesco, super armado.

Saiba que Cuba é uma ilha menor que o estado de Santa Catarina, com uma população aproximadamente igual à da cidade de São Paulo, mais próxima dos Estados Unidos (Flórida) que o Rio de Janeiro de São Paulo, e no entanto ousou desafiar e resistir à maior potência bélica do planeta, mesmo sob boicote internacional, sem poder comprar nada e vender nada para nenhum país, buscando a auto suficiência em tudo. Isso por meio século.

Fosse um povo infeliz ou revoltado e teria mais facilidade de se entregar aos algozes que um país maior e mais distante. Se não o fizeram é porque estão satisfeitos.

Quanto a Fidel, leia a sua biografia, ultrapassa muitos heróis de ficção, fabricados nos laboratórios do capitalismo.

Por fim, você sabe do que mais gosto em Cuba?
Lá não tem coxinhas, morreram todos afogados em livros, reencarnando seres conscientes.
Francisco Costa
Rio, 26/11/2016.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

CARTINHA PRUM COXINHA TRISTINHO


Boa tarde, amigo.

Antes de qualquer coisa, quero dizer que a minha raiva de você já passou.
O que era raiva virou piedade, pena, dó, tamanha a sua indigência mental.

Mas a piedade também passou agora dou risadas. Isso mesmo, acho engraçadíssima a sua carinha de me enrabaram no escuro e não sei quem foi.

Vamos começar por política externa, meu doce energúmeno?

Um dos seus argumentos era que a sua bandeira nunca ficaria vermelha, optando pelo azul dos conservadores, já que o vermelho é dos comunistas.

Outra maneira de você tentar desmoralizar a esquerda era ridicularizando o slogan “a Esperança vencerá o medo”.
Outra das suas afirmações, ainda, é que a esquerda queria o poder (a direita quer o quê, pamonha ou cachorro quente?).

Você é uma pessoa triste e entendo: você queria ter nascido em Miami ou na Pensilvânia e se chamar Herald ou Paul, mas ao invés nasceu cá nos trópicos bananeiros e é um Silva ou Costa, casado com uma Maria ou Raimunda, fueda, né, amigo? E por isso acompanha atentamente o que rola na matriz, invejando os mendigos de lá (pedem esmolas em inglês, que luxo!).

Sabia que a cor do partido Democrata é o vermelho? Não vai me dizer que você acredita que Bill e Hilary Clinton, Obama... São comunistas.

À truculência de Trump, os democratas responderam com o slogan “Hope Will overcome fear”.
Vá ao dicionário bilingue, meu beócio de estimação, sabe o que isso quer dizer? “A esperança vai vencer o medo”. Vai ridicularizar?

Olhe os dizeres que ficam no fundo dos palcos onde a Hilary discursa: Strong Together, Fortes juntos, mais o menos poderosos juntos.

Está tão parecido com o cá que me parece que a espionagem os ensinou.

Se você não está torcendo para a Hilarya Clinton, você é Trump, e louvo a coerência do coxinha, Trunp afirma que não é político, mas empresário, um gestor, exatamente como o Doria, em Sampa, o Quibe, em Belô, e o Bispo, no Rio.
Mas vamos ficar por aqui, por estas plagas tropicais, que os seus líderes querem transformar em praga tropical.
Você foi para as passeatas, para gritar Luladrão. O Moro continua acalentando o seu sonho de consumo: prender Lula, mas não encontra provas. Ajude-o.

E já que toquei no assunto, lembra quando você falou “somos todos Cunha”? Ele está preso, é ladrão.
E as delações da Odebrecht, você está acompanhando? Marcelo e os outros executivos da empresa já citaram mais de oitenta nomes: Temer, Serra, Aécio, Aloysio, Temer, Agripino, Jucá, Alkimin, FHC, Cunha, Cabral, Heráclito...
Sacanagem, o Lula não está, nem a Dilma.

Mas você odeia ladrões.
Agora vamos esquecer os ladrões, vamos falar de Economia.

O Temer está impondo uma política de austeridade, de economia das finanças públicas. Deu dois banquetes aos parlamentares golpistas, com o nosso dinheiro, mais de trezentos mil, o custo de cada rega bucho.
Patrocinou um show de pagode com a nossa grana, mais de meio milhão.

De julho para cá o cartão corporativo, aquele que as autoridades usam sem ter que ressarcir as despesas feitas, já estourou mais do que foi estourado no primeiro semestre desse ano, em nome da austeridade.
Os ministros, aspones e puxa sacos já realizaram quase 300 vôos em aviões da FAB, contrariando a lei e queimando o dinheiro público.

Você foi para as ruas para quê mesmo? Pedir austeridade e responsabilidade, não é mesmo?
Como você disse que o PT aparelhou o Estado, não é? Só numa tacada Temer nomeou mais de 14 000 para cargos comissionados, rateio entre os partidos que apoiaram o golpe, e aí?

Pelo apoio ao golpe, o Judiciário recebeu aumento, que vai nos custar mais de 56 paus. Teve ministro do STF que este mês embolsou contra cheque (olerite, na terra do volume morto, Cantareira, cabeça e pinto) de R$ 116 000,00, o que quer dizer que em dezembro vai receber mais de duzentos paus.

Os procuradores receberam aumento, na mesma proporção. A polícia federal recebeu aumento. Os deputados e senadores receberam aumento, todos os golpistas, e você?

Também, claro, aumento no gás, aumento no arroz, feijão, óleo de soja... E ainda vai ficar com o salário congelado por 20 anos.

Desculpe-me. Congelado, não. Vai crescer abaixo da inflação, o que quer dizer que vai diminuir.
Isso sem contar os seus direitos em risco: décimo terceiro, aumento na jornada de trabalho, redução nos dias de férias...
E o desemprego continua subindo, a inflação não se estabilizou, a dívida pública se agigantando...
Lembra do patinho da Fiesp? Ele tinha uma faixa: “eu não vou pagar o pato”.

Realmente a Fiesp não vai pagar, vai receber mais e mais e mais...
Está sabendo da situação do Rio de Janeiro? Tem mais 22 estados na fila de espera, para o povo dizer nóis si fudemo também.
Termino por aqui, meu caro sacripanta, sei que você não gosta de ler, prefere que o Bonner leia para você, mas me permite só mais três perguntas?
1) O que você fez com as panelas e camisetas da CBF?
2) Doeu?
3) Você usou vaselina sólida ou líquida?
Francisco Costa
Rio, 08/11/2016.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Jamais vou me conformar!!!




Por Afranio Silva Jardim

Às vezes, bate na gente um certo desânimo. Somos tentados a pensar que as coisas devem ser assim mesmo e que a nossa “luta” é inglória, que as nossas aspirações de justiça social contrariam a “natureza das coisas”.
Em outras palavras, somos tentados a admitir que a perversidade e ganância do ser humano têm de levar à criação e manutenção da divisão da sociedade em classes, divisão esta própria do sistema capitalista. Dizem: não tem jeito, pois uns têm que ser ricos e outros têm que ser pobres. Se todos forem ricos, quem vai nos servir nos necessários trabalhos braçais?
Enfim, dizem que a injustiça social seria natural, pois o homem é egoísta e individualista. O ser humano deseja tudo para si. Se sobrar algo, que os outros catem as migalhas. Dizem, ainda, “ eu quero ser feliz e, para isso, não posso me importar com o sofrimento dos outros”. Em resumo: o capitalismo estaria mais de acordo com a natureza humana e as ideias de Marx e Engels seriam incompatíveis com o individualismo, que a todos nos caracteriza.
Aceitar ser esta a nossa realidade é profundamente doloroso. Pode nos levar à submissão e à depressão. Será que os valores que nortearam toda a trajetória de nossa vida são irrealizáveis, são incompatíveis com a natureza humana? Será que temos de capitular e aceitar a triste situação que nos asfixia? Seria ingenuidade acreditar em uma sociedade igualitária, baseada na solidariedade, fraternidade, enfim, seria possível uma sociedade mais justa?
Não tenho dúvida de que a nossa história social está caracterizada pelos conflitos entre as classes sociais. A história nos mostra que sempre uma classe social oprimiu as demais, através do poder econômico e todos os demais instrumentos de coerção e persuasão. Não é de hoje que a classe subalterna assimila a ideologia da classe dominante. Hoje, este é o papel estratégico e predominante dos grandes meios de comunicação de massa.
Não tenho dúvida, entretanto, de que a nossa sociedade já foi muito pior: a guerra foi uma constante necessária para a dominação de territórios na antiguidade, sendo escravizados os vencidos, quando não exterminados;  a servidão era a base da economia na Idade Média, idade das trevas; os descobrimentos de outros continentes (na verdade, invasão) levou ao genocídio dos povos nativos e à escravidão de populações africanas, asiáticas e outras.
Enfim, por incrível que possa parecer, vendo a trajetória fraticida da humanidade, percebemos que o mundo de hoje é menos ruim …
Disto tudo, resulta uma outra reflexão: por que a sociedade de hoje é menos ruim que as sociedades do passado? A resposta nos anima: porque os oprimidos não aceitaram este determinismo social. Porque muitos deram sangue e suas vidas para não aceitar a opressão, as injustiças, o processo social de exploração do homem pelo homem. Porque sempre surgirão novas “Anas Júlias” …
Então levantamos a cabeça e afastamos o desânimo e o conformismo. A rebeldia é fundamental. Por isso, a juventude é fundamental. A história não para e sua evolução se dá através de um dinamismo dialético, que as forças conservadoras jamais conseguirão deter.
Não podemos desistir e temos de resistir, até mesmo em homenagem a todos aqueles que pereceram, na maioria ainda jovens, na luta por um mundo melhor. Se a sociedade já foi pior, é sinal que pode melhorar. Temos que manter válidos os nossos corretos valores e lutar para que eles, ao menos, permaneçam orientando as futuras gerações.
Temos pressa, mas tudo em termos sociais é muito lento. Atualmente, somos minoria, mas poderemos ser majoritários, quando o povo tiver cultura e adquirir consciência política. Quando o povo compreender o processo econômico de exploração a que está submetido. A cultura nos libertará …
Não estaremos presentes para colher os frutos desta possível e gradual melhoria social, mas resta a esperança de que estaremos tentando algo em prol de nossos netos ou bisnetos. A “luta” é boa por si só … Como dizia Eduardo Galeano, a utopia nos faz caminhar, embora ela permaneça sempre distante.
Por ora, por absoluta falta de condições objetivas para o sucesso, qualquer perspectiva revolucionária está descartada. Temos, sim, que “ganhar” os jovens para o nosso lado, mostrar a eles quais são os melhores valores. Todos devem ter as mesmas oportunidades de ser realizarem socialmente. É possível uma sociedade que não seja baseada na competição, no lucro, na concorrência, na ganância e na cobiça. É possível uma nova sociedade. É possível uma nova cultura. É possível um novo homem.
Enfim, não desanimo, embora a idade tenha diminuído em mim o açodamento juvenil. Não abro mão das minhas utopias, embora já não tenha tantas condições de correr em sua direção. Não aceito os “fatos consumados” e acho que podemos, algum dia, no futuro, subverter os fatos.
Jamais abandonarei a “luta por justiça social”, pois não consigo achar natural que as pessoas tenham tantos sofrimentos em razão de sua pobreza. Termino, dizendo: quando virem o meu caixão sendo levado para a sepultura, tenham certeza de que ali vai um eterno inconformado, um inadaptado, um rebelde nato.
Espero ter deixado caída uma semente por este nosso caminho de vida percorrido …
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Primavera, de 2016

Afranio Silva Jardim.
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Afranio Silva Jardim é mestre e livre-docente em Direito Processual Penal. Professor Associado da Faculdade de Direito da Uerj (graduação, mestrado e doutorado).
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sábado, 5 de novembro de 2016

Os acendedores de manhãs

Quem são os jovens que ocupam as escolas

Até a UFRJ!
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Hoje na UFRJ
Por Joan Edesson de Oliveira no Portal Vermelho:
Os acendedores de manhãs
Ah! Esses meninos. Ah! Essas meninas.
Espalham-se pelas ruas, pelas escolas, pelas universidades. Não se contentam mais em esperar pelo amanhã, não querem apenas, como deles dizia Máximo Górki, ter a face do amanhã. Têm sede de hoje, estão famintos pelo agora.
Quem são esses meninos, que ocupam o Brasil, que transbordam em sua juventude e em sua rebeldia, que não podem mais ser escondidos, por mais que tentem? São herdeiros de outros meninos, em lugares e em tempos tantos da nossa história. São herdeiros daquele menino baiano Antônio de Castro Alves, abolicionista e republicano, voz tão poderosa a pregar aos séculos que “toda noite tem auroras” e a dizer aos moços como ele que “não tarda a aurora da redenção”. Descendem eles do menino alagoano Zumbi, que imberbe ainda comandou homens e sonhou a liberdade.
Quem são essas meninas, buliçosas e de olhar tão vivo, que transpiram beleza e coragem, que erguem a voz doce e firme em tribunas hostis, obrigando velhos conservadores a desviar o olhar, envergonhados e derrotados, por mais que se vistam de vencedores? São descendentes diretas daquela menina Anita Garibaldi, que aos dezoito anos fazia guerra e amor, incendiando o sul do Brasil com a chama da liberdade. Elas vêm da baiana Maria Quitéria, pondo em fuga o opressor português. Vêm de outra baiana, Maria Bonita, que aos vinte anos armou a ternura e alou-se em lenda na caatinga sertaneja.
Por que despertam tanto ódio nas elites, por que são tão atacados? Não são um exército com tanques, mísseis, fuzis. Não são uma força estrangeira a nos invadir. Qual o perigo que representam, então? Por que jornais e emissoras de TV se empenham tanto em atacá-los? Por que representantes de um governo ilegítimo, velho, machista e misógino, atacam com tal força essas meninas que discursam? Por que recrutam milícias que parecem integralistas saídos de um mofado livro de história para atacar esses jovens?
É que esses meninos, essas meninas, riso solto e gargalhada livre, são uma grande ameaça. Os alicerces desse edifício secular das classes dominantes tremem ante o riso deles, temem a sua gargalhada. Mas acima de tudo, o que causa temor mesmo são os sonhos desses meninos e meninas. Sim, eles sonham. Sonham com educação de qualidade, sonham com justiça, sonham com uma polícia que não seja executora da juventude, sonham com um Brasil novo e têm a mais pura e justa certeza de que o novo sempre vem.
É por isso que eles são tão perigosos. É por isso que há jornalistas vendidos que os atacam. É por isso que há promotores de justiça que ordenam que eles sejam algemados. É por isso que há juízes que autorizam e recomendam o uso de técnicas de tortura contra eles. É por isso que há policiais prontos a bater, a socar, a prender. Porque esses meninos e essas meninas são perigosos, porque eles agarraram o futuro com as mãos e querem que o futuro seja aqui e agora, e não num tempo que nunca chega. Esses meninos são perigosos porque eles podem colocar o mundo de ponta cabeça, e de virá-lo em festa, trabalho e pão, como sonhou o poeta.
E esses meninos e essas meninas estão armados. Suas armas são as ideias que carregam, são o verbo que corta, a voz que inflama. Estão armados, eles. Trazem consigo a arma mais poderosa que há. Como em Pessoa, trazem em si todos os sonhos do mundo.
Parece que saíram de algum poema, esses meninos, essas meninas. Parecem que saíram de algum poema, para em tempos de tanta escuridão, de noite tão comprida, correrem pelas esquinas do Brasil, chamando pela aurora, acendendo as manhãs.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Geni, a calcinha enfiada na bunda e os erros do PT

Geni, a calcinha enfiada na  bunda e os erros do PT


Uma das maiores contradições do mundo em que vivemos é a culpabilização da vítima de estupro, principalmente quando a mulher é pobre.
– “Ah, mas também, com uma saia curta destas…”
– “Você não viu que ela anda com os peitos quase de fora?  E a calcinha? Assim, chama atenção mesmo”.
Esse absurdo de inversão de culpa, que dá  razão total ao estuprador, já é caso corriqueiro. Vou  fazer aqui um paralelo ao lembrar das acusações contra o PT por ter se coligado a partidos de direita para se viabilizar no poder e proporcionar uma verdadeira revolução na justiça social brasileira durante 13 anos. Depois do golpe jurídico-parlamentar-midiático, a “culpa” do PT é escancarada todos os dias pela direita e por parte da esquerda.
Os políticos de direita buscaram o mote da corrupção, num conluio com a mídia e o judiciário, passando a ideia de que quem inventou o dolo foi o Partido dos Trabalhadores. Já uma parte da esquerda prefere apontar o dedo e acusar o PT de ter se iludido com a conciliação de classes. Ou seja, andou mostrando as pernas e os peitos de forma tão escandalosa que o estuprador não teve outra saída a não ser  estuprá-lo. Outra parte da esquerda, se autoimola, se chicoteia, entra no discurso do erro pelo erro.
Simone de Beuvoir dizia que o “opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Nem  que sejam cúmplices involuntários.
Vivemos  um momento em que parte da esquerda, em vez de constatar que o golpe viria de toda a forma e que o governo só o sofreu em razão de suas virtudes, e não pelos defeitos tão sobejamente apontados, de ter se coligado com partidos de direita em busca de uma maioria para se manter no poder, une-se  aos opressores e  faz do Partido dos Trabalhadores a Geni da música de Chico Buarque. E haja pedra e haja bosta.
As virtudes, como a de tirar o Brasil do mapa da fome,  colocar pobres nas universidades em escala nunca antes alcançada,  unir-se à Rússia, Índia, China e África do Sul em busca de uma nova correlação de forças contrária aos Estados Unidos, valorizar o Mercosul e contribuir para o seu “empoderamento” e nacionalizar o pré-sal, entre outras conquistas, estão sendo esquecidas para que, tão somente, pedras sejam jogadas.
Mas onde estavam essas pessoas de esquerda quando os governos Lula e Dilma trabalhavam para reduzir um pouco da desigualdade que data de mais de 500 anos?
É verdade, alguns estavam, mesmo com as vitórias contra a miséria, apontando o dedo, mas a maioria posicionava-se  ao lado do governo. Agora, se não com a direita, estão na zona de conforto de acusar os meios, tendo se beneficiado dos fins. Estavam naquela de “vai com ele, vai Geni, você pode nos salvar, você vai nos redimir”.  E Agora se esgoelam na base do “maldita, Geni!”.
E tem gente de esquerda que ainda vibra e torce para que o PT se estraçalhe de vez, de olho no legado. Falam tanto em unidade da esquerda, mas são os primeiros a lhe dar as costas. Os votos são bem-vindos, mas que não venham carimbados com a marca do Partido dos Trabalhadores e do Partido Comunista do Brasil. Geni, nem pensar.
Querem se mostrar puros, mesmo sabendo que não há pureza ideológica numa urna. Enquanto a direita se delicia e resolve tudo explodir, parte da esquerda higienista prefere acusar e buscar o inimigo dentro de sua própria trincheira. Maldita Geni. Quem mandou andar com a calcinha enfiada no meio da bunda?

domingo, 30 de outubro de 2016

Minha opção ideológica: ainda faz sentido falar em direita ou esquerda?



Por Afranio Silva Jardim



Julgo interessante alternarmos textos jurídicos com outros sobre temas diversos, aqui na coluna deste excelente site.
Desta forma, trago à reflexão um recente escrito sobre a nossa opção ideológica, forjada em nossa juventude. Acho importante que o leitor saiba exatamente qual é o “nosso local de fala”, quais os condicionantes existenciais que, de alguma forma, acabam tendo influência em todo o nosso labor e trajetória de vida.
Desde logo, deixo bem claro: sempre tive aguçado o meu sentimento de justiça, mais especificamente, o de justiça social. Por influência de meu falecido pai e de várias outras circunstâncias, sempre achei possível uma sociedade menos injusta, alicerçada sobre outros valores que não a competição e a cobiça.
Na verdade, o mundo sempre esteve dividido entre pessoas que só pensam em si e pessoas que se preocupam com a desgraça dos outros. A falta de informação ou informação deturpada impedem a divulgação dos melhores valores, fundantes de uma sociedade mais justa. A questão é, principalmente, ideológica.
Embora tenha nascido em um lar privilegiado, sempre pugnei por justiça social. Agradeço ao meu saudoso pai por ter despertado em mim esta consciência crítica, como disse acima. Malgrado corra o risco de cair num reprovável maniqueísmo, digo que se trata de uma luta da solidariedade contra o egoísmo. Pode ser até utopia ou romantismo juvenil, mas é a utopia que nos faz caminhar, como dizia Eduardo Galeano e a utopia é absolutamente necessária.
O mundo já foi muito pior (mataram quase todos os índios, escravizaram os negros e dizimaram civilizações, em razão do racismo e da ganância). Graças à luta contra os egoístas, o mundo melhorou e, algum dia, a solidariedade, e não a competição, fará surgir um novo ser humano. Como disse Leon Gieco, em uma das suas belas músicas, “há de vir uma nova cultura”.
A nossa esperança é que, ao menos, todos tenham as mesmas oportunidades. Que os filhos da nossa empregada doméstica tenham as mesmas oportunidades sociais que os nossos filhos, vale dizer, que o filho do empregado não nasça empregado e que o filho do patrão não nasça patrão.
Espero que consigamos vencer este trágico determinismo de uma sociedade profundamente injusta e indiferente à dor dos outros. Que jamais uma criança morra nos braços de sua mãe em razão de falta de recursos para o seu tratamento médico, enquanto outros jogam “dinheiro pelo ralo”.
Fala-se que, nos dias de hoje, já não fazem mais sentido as “categorias políticas” chamadas de pensamento de esquerda e de direita. Não penso assim, e abaixo justifico o meu entendimento, embora de forma bastante simplificada e, até mesmo, de forma simplista.
O pensamento de esquerda prioriza a justiça social, sustentando que o Estado Popular deve assegurar, no mínimo, as mesmas oportunidades para todos.
Para isso, os chamados “bens de produção” devem ser gerenciados pelos trabalhadores, que são aqueles que realmente produzem a riqueza. As riquezas produzidas pela mão dos trabalhadores e trabalhadoras devem ser distribuídas e não concentradas nas mãos de uns poucos. Ninguém pode explorar o trabalho alheio.
Os valores da esquerda são a solidariedade e igualdade. Busca-se uma sociedade justa, sem explorados e exploradores.
Já a chamada “direita” privilegia a competição e a concorrência na sociedade. É individualista.
Os liberais acreditam que a livre iniciativa na economia vai fazer a sociedade se desenvolver. Apostam no lucro, na cobiça, embora acreditem que os empresários são “bondosos”, pois criam empregos. Querem liberdade na economia, mas são “castradores” no que diz respeito à evolução dos costumes na sociedade. Neste particular, quase sempre a direita é conservadora ou mesmo reacionária.
A direita fala em total liberdade. Entretanto, tal liberdade é meramente abstrata pois, no mais das vezes, não é o Estado que a subtrai. No dia a dia das pessoas, a liberdade é suprimida pela relação privada de emprego.
Através do contrato de trabalho, mormente em uma sociedade onde não há pleno emprego, tenho que obedecer ao meu patrão, tenho que a ele ser submisso.
Muitas vezes, se o empregado não for um “bajulador” do seu patrão, pode ser colocado no “mar da amargura”. As pessoas saem de casa com o risco de voltarem desempregadas.
Isto não ocorre com os funcionários concursados, que têm estabilidade no serviço público ou em uma sociedade coletivizada, onde o patrão seja uma cooperativa de trabalhadores.
Minha empregada doméstica tem liberdade para viajar para Paris ou Londres. Entretanto, ela pode efetivamente exercer esta liberdade? Posso dizer o que desejo aqui, atingindo centenas de pessoas. Entretanto, de noite, a TV Globo destrói tudo, atingindo mais de 20 milhões de pessoas …
Dizem que antes de distribuir, é preciso fazer “crescer o bolo”. Sucede que raramente o “bolo cresce” e, quando cresce, eles não querem distribuir…
A esquerda pode ser um pouco utópica, mas a “poesia” está com ela. A direita aposta no egoísmo do ser humano, cria uma sociedade individualista e indiferente à dor alheia. Um verdadeiro “darwinismo” social. Que vençam os mais astutos, os mais aptos ou os mais “fortes”!
Esta é a avaliação de alguém que sempre se negou a aceitar uma sociedade onde crianças peguem comida no lixo e mães assistem a seus filhos morrerem por falta de dinheiro para tratá-los das suas doenças graves. Não me conformo com esta miséria, embora este “sistema econômico” sempre me tenha sido favorável. Por isso, julgo ter legitimidade para criticá-lo: não falo em causa própria.
Enfim, por tudo isso, me insiro no pensamento de esquerda. O grande problema é conseguir uma sociedade justa sem sacrificar a liberdade individual, efetiva e concreta, pois ninguém abre mão de seus privilégios senão pela coerção.
A utopia é como o horizonte; está sempre distante. Entretanto, vale a pena repetir, ela é que nos faz caminhar (Galeano). Caminhemos sempre. Digamos não ao imobilismo. Digamos não ao conformismo.