terça-feira, 1 de março de 2016

A quem serve a classe média indignada?



Cientista político e presidente do Ipea rejeita, em novo livro, interpretações do Brasil como a de Sérgio Buarque de Holanda. Negando a ideia de que jeitinho e corrupção sejam exclusividades nacionais herdadas da colonização, aponta o "racismo de classe" e o abandono dos excluídos como raízes dos problemas do país. 
Confusão entre o público e o privado, compadrio, herança católica portuguesa, predomínio das relações pessoais e familiares sobre o sistema de mérito, corrupção. Ao contrário do que em geral se pensa, nada disso é característica exclusiva do Brasil.

A entrevista é de Marcelo Coelho, publicada por Folha de S. Paulo, 10-01-2016.
Para Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), criou-se no Brasil, à esquerda e à direita, um legado de equívocos a partir do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), que merece ser classificado como um verdadeiro "complexo de vira-lata".
Para o professor de ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense), que acaba de lançar "A Tolice da Inteligência Brasileira", a intelectualidade do país tende a idealizar as sociedades capitalistas avançadas, imaginando que em países como Estados Unidos ou França predomine a plena igualdade de oportunidades e a completa separação entre o Estado e os interesses privados. Mas o peso das origens familiares, do capital cultural acumulado ao longo de gerações, das pressões empresariais sobre o poder público está presente, diz ele, em qualquer país capitalista.
Autor de estudos sobre Max Weber (1864-1920) e Jürgen Habermas, Jessé Souza desenvolve, em "A Tolice da Inteligência Brasileira", um sofisticado argumento teórico para mostrar de que modo o conceito weberiano de "patrimonialismo" –fundamento das críticas de Raymundo Faoro (1925-2003) à imobilidade do sistema social brasileiro e ao fracasso do capitalismo e da democracia entre nós– não foi originalmente pensado para ter aplicação nas sociedades modernas.
Ao interesse teórico que marcou o início de sua carreira, Jessé Souza tem acrescentado, nos últimos anos, um intenso trabalho de investigação empírica, do qual resultaram livros como "Os Batalhadores Brasileiros: Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora?" (editora UFMG, 2010), e "A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive" (ed. UFMG, 2009).
O problema da economia e da democracia brasileiras, argumenta Souza, não nasce de supostas deficiências culturais que tenhamos frente aos países desenvolvidos, mas da incapacidade do sistema para integrar um vasto contingente de excluídos, a quem faltam não apenas recursos materiais, mas equipamentos básicos de educação, autoestima e cidadania.
A lição de Florestan Fernandes, em especial de seu livro de 1964, "A Integração do Negro na Sociedade de Classes" (ed. Globo), é das poucas que saem preservadas do implacável julgamento crítico de "A Tolice da Inteligência Brasileira", repleto de palavras duras contra Roberto DaMattaFernando Henrique Cardoso e outros mestres do pensamento social entre nós.
Eis a entrevista.
As ciências sociais brasileiras –com influência no discurso da imprensa e das classes médias– têm insistido no conceito de "patrimonialismo": a prática de tratar bens públicos como se fossem propriedade de uns poucos personagens com acesso permanente ao poder político. Você critica esse conceito, chamando-o de "conto de fadas para adultos". Poderia explicar?
conceito de patrimonialismo foi contrabandeado de Max Weber sem a menor preocupação com a contextualização histórica que é fundamental em Weber. Acho que isso está bem fundamentado no livro, mas a "incorreção científica" não é a questão principal aqui.
O patrimonialismo só sobrevive como um conceito que quer dizer alguma coisa em um contexto que pressupõe o complexo de vira-lata do brasileiro. Essa é a questão principal. É só porque se imagina, candidamente, que existam países onde não há a apropriação privada do Estado para fins particulares –os EUA para os liberais brasileiros seriam esse paraíso– que se pode falar de patrimonialismo como particularidade brasileira.
Imagine a meia dúzia de petroleiras americanas, que mandavam no governo Bush filho, atacando o Iraque, com base em mentiras comprovadas, pela posse do petróleo. E com isso matando milhões de pessoas e desestabilizando a região até hoje com consequências funestas que todos vemos.
Quer melhor exemplo de apropriação privada do Estado para fins de lucro de meia dúzia sem qualquer preocupação com as consequências? A verdadeira questão é sempre em nome de que e de quem se apropria do Estado: para o lucro de meia dúzia –como foi a regra no Brasil e que é a real motivação do impeachment de hoje– ou para a maioria da sociedade.
Minha tese é a de que, no Brasil, o patrimonialismo serve para duas coisas bem práticas:
1) A primeira é demonizar o Estado como ineficiente e corrupto e permitir a privatização e a virtual mercantilização de todas as áreas da sociedade, mesmo o acesso à educação e à saúde, que não deveria depender da sorte de nascer em berço privilegiado;
2) Serve como uma espécie de "senha" de ocasião para que o 1% que controla o dinheiro, a política (via financiamento privado de eleições) e a mídia em geral possa mandar no Estado mesmo sem voto. Não é coincidência que tenha havido grossa corrupção em todos os governos, mas apenas com Getúlio, Jango, Lula e Dilma, governos com alguma preocupação com a maioria da população, é que a "senha" do patrimonialismo tenha sido acionada com sucesso. Somos ou não feitos de tolos?
A corrupção no Brasil, segundo muitos analistas, teria causas culturais, originadas na tradição ibérica e católica. Qual a sua discordância com relação a essa tese?
Essa versão é falsa. Ela é "pré-científica", já que examina o fenômeno da transmissão cultural nos termos do senso comum que pensa mais ou menos assim: "Se meu avô é italiano, então também sou". Depende. A língua comum facilita certas interações, mas o decisivo e o que efetivamente constrói os seres humanos são as influências das instituições, como a família, a escola, a economia e a política.
No Brasil, desde sempre, temos a escravidão como uma espécie de "instituição total" que determinou um tipo muito peculiar de família, de religião, de poder político, de exercício da justiça, de produção econômica, tudo isso muito distinto de Portugal, que desconhecia a escravidão, a não ser de modo muito tópico e localizado.
Igreja Católica, por exemplo, tinha muito poder e continha o mandonismo dos grandes senhores. Aqui o "senhor de terras e gente" mandava em tudo sem peias. O Brasil desde o ano zero foi, portanto, uma sociedade singular, apesar de colonizada por Portugal. Mas foi a partir desse engano que se criou uma ciência culturalista frágil e superficial, baseada no senso comum que hoje ganha a mente e os corações dos brasileiros de tão repetida por todos.
O mais importante é que essa falsa ciência que constrói o brasileiro como inferior –posto que ligado ao "corpo" como emotividade e sexo, se opondo ao europeu e americano que seriam o "espírito", intelecto e moralidade distanciada– serve a interesses políticos. Esse racismo pela cultura só substitui o "racismo racial" clássico, mantendo todas as suas funções de legitimar privilégios.
Na dimensão internacional, a intelectualidade brasileira dominante, colonizada até o osso, engole o racismo cultural e torna ontológica a suposta inferioridade brasileira; na dimensão interna e nacional, serve para separar "classes do espírito", como a classe média "coxinha", que seria "ética", posto que escandalizada com o "patrimonialismo seletivo" criado pela mídia, e as classes populares, tidas como "amorais", posto que guiadas pelo interesse imediato.
Essa espécie de "racismo de classe", falso de fio a pavio, é o fio condutor do empobrecido debate público brasileiro.
Você é muito crítico com relação a um dos formuladores desse "culturalismo", Sérgio Buarque de Holanda. As teses de "Raízes do Brasil" foram expostas em 1936. Será que ao menos naquela época a crítica a um Estado sem meritocracia, baseado no favoritismo e nas relações familiares, não era correta?
Eu gostaria antes de tudo de saber onde fica esse país maravilhoso, formado apenas pelo mérito, que não favorece ninguém e onde relações familiares não decidem carreiras. Quem conhecer, por favor, me avise. Eu passei boa parte de minha vida adulta em países ditos "avançados" e nunca conheci um assim. A própria crença de que exista algo assim prova como o racismo e a "vira-latice" tomou conta de nossa alma.
Sérgio Buarque de Holanda é o pai desse liberalismo amesquinhado e colonizado brasileiro. É necessário sempre separar a "pessoa" da "obra" e de seus efeitos sociais, que são o que importa. O liberalismo é fundamento importante da democracia, mas existem várias maneiras de ser liberal, e a nossa maneira é a pior possível.
Buarque criou a semântica do falso conflito que permite encobrir todos os conflitos sociais verdadeiros entre nós e que nos faz de tolos até hoje. A absurda separação entre um Estado demonizado como corrupto e ineficiente e o mercado como reino de todas as virtudes, quando os dois no fundo são indissociáveis, só serve como mote para a meia dúzia que manda no Brasil e controla o dinheiro, a política e a informação via mídia virar o país de ponta-cabeça só para ter mais dinheiro no bolso.
Como não se pode dizer que o que se quer é uma gorda taxa Selic e o acesso "privado" às riquezas brasileiras, como petróleo e ferro, para essa meia dúzia, então diz-se que é para acabar com o "mar de lama", sempre só no Estado, se ocupado por partidos populares, e sempre seletivamente construído via mídia conservadora em associação com as instituições que querem aumentar seu poder relativo vendendo-se como "guardiãs da moralidade pública".
É esse discurso que transforma milhões de pessoas inteligentes em tolas. Essa parcela da classe média conservadora é explorada por esse 1% que lhe vende os milagres da privatização brasileira: a pior e mais cara telefonia do globo, por exemplo, campeã de reclamações. De resto, todos os bens e serviços produzidos aqui são piores e mais caros. Mas dessa espoliação da classe média por um mercado superfaturado que vai para o bolso do 1% mais rico ninguém fala.
O filho do "coxinha" quer ter acesso a uma boa universidade pública, e o avô dele, quando está doente e o plano não paga, tem que ir ao SUS para doenças graves e tratamentos caros. Um Estado fraco só serve ao 1% mais rico que pode ficar ainda mais rico embolsando a Petrobras a preço de ocasião. O "coxinha" só é feito de tolo.
A classe média "coxinha" que sai às ruas tirando onda de campeã da moralidade, por sua vez, explora e rouba o tempo das classes excluídas a baixo preço para poupar o tempo do trabalho doméstico e investir em mais estudo e mais trabalho valorizado e rentável.
Luta de classes não é só cassetete na cabeça de trabalhador. É uma luta silenciosa e invisível (para a maioria) que implica monopólio de recursos para as classes privilegiadas e condenações à miséria eterna para a maioria dos 70% que não são da classe média ou do 1% mais rico. A fanfarra do patrimonialismo e da corrupção só do Estado serve, antes de tudo, para tornar essas lutas invisíveis.
Como você vê a obra de Roberto DaMatta nesse contexto?
A obra dele, que reflete fielmente as discussões de botequim de todo o Brasil, foi uma tentativa de "modernizar" Buarque. O mais irritante é que esse pessoal "tira onda" de crítico ao repetir as platitudes do Estado patrimonial e do "jeitinho" como prova da queda ancestral do brasileiro médio para auferir vantagens por relações de conhecimento com poderosos.
A tese central de DaMatta, que se tornou uma espécie de "segunda pele" do brasileiro médio, é a de que a hierarquia social brasileira é fundada no capital social de relações pessoais. Essa seria a peculiaridade brasileira que viria de épocas ancestrais. Desde que a gente reflita duas vezes, essas teses caem como castelo de cartas. Se não, vejamos.
O leitor que nos lê conhece alguém com acesso a relações pessoais com pessoas poderosas sem, antes, ter capital econômico ou capital cultural? Se o leitor conhecer, então DaMatta tem razão na sua tese do jeitinho.
Como desconfio de que o leitor não conhece ninguém assim, então o que DaMatta faz é tornar invisível a distribuição injusta de capital econômico e cultural e, com isso, sepultar qualquer reflexão sobre a origem social de toda desigualdade.
Para completar supõe –no fundo a cândida e infantil crença nos Estados Unidos como paraíso na terra– que existam países onde o capital em relacionamentos não decida previamente a vida da maior parte das pessoas. Teoria mais frágil e colonizada impossível. Mas é ela que faz a cabeça do brasileiro médio hoje.
Ao lado do "culturalismo conservador", você critica o economicismo de raiz marxista. Quais as suas restrições a esse modelo explicativo?
É que o capitalismo não é só troca de mercadorias e fluxo de capital. É preciso, por isso, superar o economicismo, seja liberal, seja marxista. O capitalismo é também um sistema social e moral que avalia todo mundo e que humilha e despreza uns e enobrece e legitima a felicidade de outros.
É essa hierarquia social "invisível" (mas cuja realidade o estudo empírico pode mostrar) que diz o que é certo e errado, verdadeiro ou falso. O capitalismo é, portanto, um sistema de classificação e desclassificação que predetermina quem ganha e quem perde e legitima esses lugares.
No livro, que resume meus 35 anos de trabalho teórico e empírico sobre esses temas, procurei mostrar que esses sistemas de classificação são os mesmos para Brasil e Argentina, do mesmo modo como atuam na França ou naInglaterra.
A peculiaridade do Brasil é a tolerância com o abandono da classe dos excluídos que chamo provocativamente de "ralé". Todos nossos problemas –insegurança, baixa produtividade, serviços públicos de má qualidade– advêm do esquecimento dessa classe.
A corrupção existe em todos os países, você diz. Mas certamente há diferenças de grau entre a Dinamarca, digamos, e o Brasil.
corrupção é endêmica ao capitalismo. Se corrupção for enganar o outro, então o capitalismo é certamente mais engenhoso que qualquer outro sistema social.
O que outros países como a Dinamarca ou Alemanha não têm é a corrupção "pequena" –a única que o cidadão feito de tolo enxerga no cotidiano– do agente público mal remunerado, como os policiais entre nós. Existem também arranjos institucionais mais ou menos bem-sucedidos.
O Brasil ganharia com o financiamento público de eleições e com uma reforma política que tornasse mais transparente a relação com a economia. É nisso que falta avançar. Mas é preciso mesmo ser muito ingênuo para não perceber que a "grossa corrupção", a que drena capitais e privilégios para uma pequena minoria, é universal. Dilmatentou comprar essa briga no Brasil, enfrentando o grande capital especulativo. Hoje fica claro que esse pessoal não a perdoou pela ousadia.
Suponha-se que Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta estejam errados ao atribuir a uma particularidade brasileira, a um vício cultural católico português a inexistência de um sistema de mérito real, de uma real impessoalidade do Estado e de uma legítima situação de igualdade de oportunidades no Brasil. Mesmo que essa situação não corresponda à realidade de um país como os Estados Unidos, que esses autores idealizam, será que essa crítica não expressa um desejo de transformação importante? Em vez de anular o valor dessa crítica, poderíamos alargar sua dimensão estendendo-a a outros países.
O único caminho seguro, na vida pessoal ou na coletiva, é a verdade. Não se pode pensar uma sociedade e suas contradições alargando uma concepção falsa desde os pressupostos. Nem há razão para isso.
O livro mostra, creio eu, que é possível um novo caminho para a percepção do Brasil e de suas singularidades. Um caminho que não vise apenas preservar os privilégios absurdos de uma pequena elite socialmente irresponsável, legitimados por uma pseudociência, mas que possa, inclusive, recuperar a inteligência viva dessa mesma classe média que é hoje manipulada a agir contra seus interesses.
Você diz que as classes médias, predominantes nas manifestações de junho de 2013, são feitas de tolas quando compram automóveis com o triplo da taxa de lucro dos países europeus, pagam taxas de juros estratosféricas e usam serviços de celular entre os mais caros e ineficientes do mundo. Mas não teriam razão, do ponto de vista de seus interesses, ao reclamar de impostos que são uma parcela enorme do preço de bens como veículos automotores e geladeiras?
A estrutura de impostos no Brasil tem de ser efetivamente revista no sentido de evitar impostos indiretos em produtos e serviços e atingir mais a renda diferencial, e, muito especialmente, o patrimônio. Desse ponto de vista, ela pode ter um pouco de razão.
Mas o ponto mais importante para a tolice da classe média é que o Estado funciona como arrecadador de impostos, antes de tudo, para bancar e garantir a drenagem de recursos arrecadados da sociedade como um todo para a meia dúzia de plutocratas que manda na economia, na política via financiamento de eleições e na mídia. O pagamento de juros para essa meia dúzia e seus colegas estrangeiros –o único aspecto que ninguém nem sequer pensa em cortar em ocasiões de crise– compromete, por exemplo, o investimento em educação e saúde de qualidade para todos.
O plutocrata vai aos EUA se operar se for preciso e manda o filho estudar em Miami ou na Suíça, como acontece realmente hoje em dia. A classe média que sai às ruas para apoiá-lo precisa do SUS quando a chapa esquenta e só conta com a universidade pública aqui mesmo para o filho. Ao mesmo tempo, paga os serviços e produtos mais caros e de menor qualidade relativa do globo no nosso mercado superfaturado. Esse "extra" também é um imposto que sai da classe média direto para o bolso da elite econômica. Mas dele nunca se fala.
Essa classe média, portanto, é espoliada pela elite por mecanismos tanto de Estado quanto de mercado, e é ela que depois sai às ruas para defender os interesses dessa mesma elite usando o espantalho seletivo da corrupção apenas estatal.
Essa é a real história da tolice pré-fabricada entre nós.
O sentimento anti-Estado e pró-mercado tende a ser conservador e perverso no Brasil. Mas não poderíamos acusar a esquerda, em especial o PT, de um excessivo "estatismo", não no sentido econômico, mas no de considerar que a transformação social poderia vir de uma simples conquista do poder político pelo partido de esquerda? Em vez de privilegiar formas de auto-organização e de capilarização do partido nas periferias, o PT procurou agir "a partir de cima", e não "a partir de baixo". Como resultado, vemos nas periferias todo tipo de igrejas evangélicas, mas nenhum núcleo ou sede distrital de partidos políticos. O preço para assumir o poder sem essa organização foi a aliança com os setores mais retrógrados da política brasileira, como Collor, Maluf, os ruralistas e a bancada evangélica. O "estatismo" de esquerda, nesse sentido, não seria uma repetição para pior do populismo? O petismo não seria também um conto de fadas para adultos?
O principal erro do PT para mim foi duplo e reflete sua dependência da narrativa liberal tão importante nele quanto em um partido conservador da elite como o PSDB. Esse foi um dos temas centrais do livro: mostrar que a ideologia liberal amesquinhada dominou também a dita "esquerda", colonizando a tradição social-democrata ou socialista democrática.
O PT teria que ter criado uma narrativa independente mostrando a importância do passo a passo da ascensão social possível e mostrando as dificuldades também –sem cair, por exemplo, na fantasia da nova classe média, que gerou expectativas desmedidas.
Essa narrativa poderia ter sido uma versão politizada, mostrando a importância da política inclusiva e da "vontade política" para a mobilidade social, de modo a se contrapor à leitura individualista da ascensão social da religião evangélica.
Mas, para isso, teria sido necessário tocar no nó górdio da dominação social no Brasil, que é o papel de "partido político da elite" assumido pela imprensa conservadora desde o golpe contra Getúlio. É ela, afinal, quem chama a classe média moralista e feita de tola às ruas e é ela que manipula seletivamente e a seu bel-prazer o tema da corrupção como única moeda dos conservadores para mascarar seus interesses mais mesquinhos em pseudointeresse geral. É ela quem tira onda de "neutra", quando apenas obedece ao dinheiro.
O medo desse confronto foi a real causa do que agora acontece. Em uma sociedade midiática, onde toda informação vem de cima para baixo, tem que existir o contraditório, a opinião alternativa, senão o voto do eleitor não é esclarecido nem autônomo, ou seja, rigorosamente, não tem democracia. Nesse sentido estamos mais perto da Coreia do Norte do que da Inglaterra ou da Alemanha. Confiar apenas nos "movimentos sociais" nesse contexto é ingenuidade. Esses movimentos também estão sob a égide do discurso único da mídia conservadora. Essa é para mim a real razão do fracasso relativo do projeto petista.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Lula: porque defender o homem e o mito



Por MARGARIDA SALOMÃO
Deputada federal pelo PT-MG



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O mito é o nada que é tudo”. O primeiro verso de Fernando Pessoa no poema Ulisses epigrafa a reflexão que devemos fazer sobre o que está acontecendo ao presidente Lula neste momento da história brasileira.
Lula não era nada. Pobre, filho de analfabetos, imigrante nordestino e operário. Posteriormente sindicalista, deputado, fundador do PT e, audaciosamente, candidato à presidência da república. Como não era nada, apenas uma voz dissonante que acreditava na democracia e, principalmente, acreditava que era possível e necessário acabar com a desigualdade, a fome e a miséria neste país, perdeu a eleição três vezes. Mas não perdeu a esperança.
Por isso, tornou-se tudo. Dentro de um contexto de extrema adversidade – dívida externa, recessão, desemprego – virou um gigante. Falando para cada um, em cada canto desse país, que era possível fazer diferente, contagiando as pessoas com o seu sonho. O projeto antes remoto, abstrato, amorfo revelou-se um campo de possibilidades que pulsava, vibrava e movia o povo. Criou-se o mito, que eleito e reeleito presidente, realizou o melhor governo da história  deste país. Começou-se a construir um futuro glorioso, não para as velhas elites oligárquicas, ou para os eternos donos de tudo; glorioso para quem foi como Lula no passado: nada.
Por ser um homem-mito, que alimenta os sonhos daqueles que não tinham perspectiva de futuro, passou a parecer perigoso. Na história recente, não há ninguém vivo na esquerda mundial que possua uma trajetória de vida como Lula. Sua biografia tem um teor subversivo capaz de desestabilizar o status por  encarnar historicamente a esperança dos que não têm. 
Característica de seu legado, democrata, republicano e negociador, é não ter optado pelo enfrentamento radical da conjuntura, alavancando mudanças mais estruturais, mais profundas. Talvez, por este ponto, tenha sido ingênuo ou presunçoso, imaginando que a elite, tendo sido também beneficiada nos seus governos, lhe seria  grata pela eternidade.
Não se trata de questões morais, mas de práticas secularmente inculcadas na nossa cultura que naturalizam, por exemplo, que o anti mito Joaquim Barbosa adquira um apartamento luxuoso em Miami, ou que, o self made man Silvio Santos tenha salvado o seu banco Pan Americano em negociação com o “amigo do Aécio”, André Esteves, preso na Lava Jato.
Joaquim Barbosa e Silvio Santos, um negro e o outro camelô, têm aval para fazerem o que quiserem porque são exceções, fazem jus a seu "mérito": não ameaçam a regra, não abalam as estruturas. Entretanto, o nordestino operário que ousou ser presidente foi longe demais. Ele não só subiu na vida como também levou muita gente junto. Tirou mais de 20 milhões de pessoas da miséria, elevou 42 milhões à classe C e, atrevidamente, criou onze novas universidades federais, além de programas como o  Prouni e as cotas raciais que mudaram definitivamente a cara das instituições universitárias  e as perspectivas de futuro da juventude pobre, negra, da periferia e do interior.
É fato que muito do que foi conquistado está hoje ameaçado pela crise econômica mundial e, principalmente, pelo rancor dos que nunca aceitaram que um operário, com curso técnico, fosse “o cara”, e tirasse o Brasil da condição subalterna. Assim, é necessário desgastar a aura do mito, banalizá-lo, reduzi-lo a homem comum, expor suas fraquezas, escancarar e agravar suas feridas. Mais, é preciso criminalizar o mito. Acabar com toda sua força propulsora, eliminar sua potência.
E fazem isso com toda desfaçatez porque, no senso comum, sempre gotejou a ideia de que pobre quando chega ao poder faz algo errado. Então, conservadores, mídia reacionária e o poder judiciário que, recentemente, virou Deus na política brasileira, empenham-se, teratologicamente, em transformar o mito Lula na encarnação da corrupção.
Está em curso uma desqualificação generalizada da esquerda que abre caminho para uma hiperaceitação da direita. Isso é tático. O bolo está menor e não dá para todos. A esquerda defende o bem comum e a inclusão social, enquanto a direita busca defender seus próprios bens e a "liberdade" para acumular mais. Se não há bolo para todos como fatiá-lo?
A crítica moralista àqueles que teimaram, com todos os erros e acertos, a colocar na ordem do dia o combate às desigualdades e a toda forma de exclusão, tem somente uma finalidade: esconder que o problema é sistêmico. E para a sobrevivência desse sistema ganancioso e corrupto é fundamental matar o mito e manter-nos sob controle por meio do medo e do ódio. Não é para romper com práticas seculares que querem que nos sintamos traídos e enganados. É para perdermos a esperança, para achar que não tem jeito, para ficarmos apáticos e mais distantes dos espaços de decisão.
É preciso matar o mito para matar a nossa capacidade de sonhar e agir de forma inesperada. Quando sonhamos, conseguimos nos libertar das amarras e buscar outros caminhos e possibilidades. Em tempos de crise, é letal este abandono.  Não podemos nos deixar contaminar pela desesperança, pela apatia, pelo medo. Temos que lutar.  Não só por Lula: por nós mesmos. Porque uma sociedade sem a utopia de sua emancipação , como profetiza Pessoa, está liquidada. “Em baixo, a vida, metade/ De nada, morre”.

E VIVA A CORRUPÇÃO!



De repente, num passe de mágica, todos os brasileiros politizaram-se, transformando-se em doutores especializados em Ciências Políticas, com precisas análises de conjuntura e exata percepção da realidade.

A oposição brasileira tem como certo que o impeachment não passará e mais certo que, pela via eleitoral, Lula é imbatível.

Então a tática e a estratégia são simples, mas altamente eficazes: sangrar, desgastar Lula, e, permanecendo no regime presidencialismo de direito, como determina a constituição, criar um parlamentarismo de fato, com o poder legislativo fazendo um governo paralelo.

Para isso é preciso deixar o povo de fora, alienado, como o bom corno manso, com flores e bombons para a adúltera.

A melhor maneira de se dominar vontades e intenções, seja a nível de grupo, indivíduo ou sociedade, é restringindo o universo dos pensamentos, levando as pessoas a pensar muito e o mesmo, repetitivamente, o que em psicologia é chamado de monoideísmo, despersonalizando.

É isto o que leva ao fanatismo, a ideia única, em detrimento de todas as outras possíveis.
Para o fanático religioso as coisas só acontecerão se Jesus permitir, ou não acontecerão, se Jesus não quiser, porque Jesus está no comando, é fiel, só Jesus cura, só Jesus salva, e o desemprego e a dengue são da vontade de Deus, e se o antibiótico cura a gripe, mais um milagre de Jesus, e o emprego apareceu, Deus é bom.

Nas outras religiões não é diferente, substituindo-se as palavras Jesus e Deus pelo santo de devoção ou o “orixá de cabeça”, por Alá ou Javé, de maneira que o crente se torne um ser despersonalizado, sem livre arbítrio, não mais que um objeto de uma força externa.

Esse procedimento, exitoso, fazendo fortunas de líderes religiosos, erguendo impérios econômicos, chegou à política, com todos no exercício do monoideísmo: corrupção!

Se o Federal Reserve(Banco central norte americano) aumenta a taxa de juros, aumentando a captação de dólares, gerando inflação e desemprego em todo o mundo, no Brasil é por causa da corrupção.

Os Estados Unidos têm um déficit primário de 2,5%, a França, de mais de 4%, o Japão, de 8,8%, mas, segundo a mídia, estamos quebrados, por causa de um déficit de 0,5%, culpa da corrupção.

O governo desonera(deixa de cobrar impostos, temporariamente), para aumentar a produção, reduzir o desemprego e contornar a crise internacional, todo mundo troca de tevê, de carro, põe o filho na escola particular, reforma a casa e, cessada a desoneração, porque cientificamente impossível continuar por longo tempo, há um limite para não se arrecadar, e vem a grita: subiu de preço por causa da corrupção.

O continente sul americano, por conta do fenômeno climático El Niño, enfrenta a maior estiagem dos últimos sessenta anos, falta água para irrigar as plantações, cai a produtividade e aumentam os preços, o que é natural, mas é por causa da corrupção.

Falta água nos reservatórios, a energia elétrica troca de matriz, passando a ser gerada a partir dos derivados de petróleo, bem mais caros que a água, aumenta a tarifa da energia elétrica, por causa da corrupção.

E é preciso combater os que não pensam iguais a nós, e novamente o monoideísmo preconceituoso dos religiosos: todo pastor é ladrão, todo padre é pedófilo, todo pai de santo é homossexual porque, se não acreditam no que acredito é porque estão a serviço de satanás, transposto para a política: todos os que não pensam iguais a nós são corruptos ativos ou passivos, tolerantes com a corrupção.
E há o perdão: sou evangélico e sei que há pastores desonestos, embusteiros, mas não são problema meu, mas de Deus; sendo católico, os padres pedófilos não são problema meu, mas da Cúria, do Vaticano, de Deus... De maneira que os nossos corruptos, mais que serem tolerados, têm o nosso apoio, não é um problema nosso, mas da justiça.

Assim, um Eduardo Cunha, com 22 processos por corrupção, mais duas investigações em curso e um indiciamento, com 9 contas secretas no exterior, fruto de saque no dinheiro público, continua a presidir o parlamento brasileiro, com o apoio de toda a oposição, porque é o bom ladrão, o ladrão útil, o Dimas da direita brasileira.

A maior rede de tevê do país, praticamente fonte única de informações e de formação do povo, antes de qualquer investigação, acusa um homem de ser proprietário de um triplex avaliado em 1,8 milhões, comprado a prestações.

Com as provas de que o homem não é o dono do imóvel, contorna-se, afirmando que está praticando ocultação de patrimônio, que está no nome de laranjas, até que a mídia alternativa descobre que está em nome de laranjas sim, mas não ligados ao acusado, e sim à rede de tevê que o acusou, sendo os mesmos em cujos nomes está um outro triplex, este avaliado em 20 milhões, construído em terras públicas, área de preservação ambiental, e isto não vem ao caso porque tudo feito pelos donos da tevê que denunciou o homem, todos ladrões correligionários, toleráveis, corrupto é o governo e os a ele ligados.

Os do governo, por sua vez, impotentes e incompetentes para mudar a situação, assistem o desmonte das empreiteiras nacionais, gerando desemprego e paralisando a economia; à interrupção do desenvolvimento do nosso programa nuclear, perpetuando a dependência e o colonialismo; o sucateamento de uma das maiores petroleiras do mundo, orgulho nosso, preparando-a para ser fatiada e vendida às petroleiras multinacionais, limitados a repetir corrupção, corrupção, corrupção... Em sentido oposto, contra a oposição.

Como romper esse ciclo nefasto que está nos destruindo? Como neutralizar este demônio chamado corrupção que, como nas religiões, está a serviço dos que dele se servem, em nome de Deus?
O brasileiro transformou a política, cuja matéria prima é a informação, em religião, cuja matéria prima é a fé, o acreditar, com ou sem provas.

Tornamo-nos todos corrupcionistas e ainda não nos demos conta.

Até quando reduziremos tudo à corrupção, em ideia única e que a tudo justifica, para regalo e lucro dos verdadeiros corruptos?
Francisco Costa
Rio, 15/02/2016.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O chapéu de couro de Luiz Inácio Lula da Silva


Por Osvaldo Bertolino
A campanha da direita para destruir a reputação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva avança do noticiário moldado pela técnica do nazista Joseph Goebbels de transformar mentiras em verdades à força da repetição para os editoriais. É a ideologização da calúnia. Todo santo dia há um deles em algum veículo da cadeia midiática que se formou para, num tom monocórdio, despejar sobre a sua mais simbólica vítima o tufão de acusações que surgiu com a mais recente fase da série midiática chamada “Operação lava Jato”, deflagrada pelo juiz Sérgio Moro.
O método dos caluniadores é invariável. A vida de Lula vem sendo revirada pelo avesso para mostrá-lo como um soba pouco mais do que analfabeto, que tem praticado uma infinidade de atos idiotas. Lança-se sobre um dos pratos da balança da justiça o peso de uma montanha de acusações com o intuito declarado de privar o ex-presidente dos seus direitos de cidadão. O acinte chega ao ponto de chamá-lo de “marido da Marisa” e “bisonho barbudo”, como fez o jornal O Estado de S. Paulo em editorial.
Língua do povo
Os achincalhes têm o propósito óbvio de ocultar o caminho histórico do povo brasileiro que o levaria à sua independência, à sua libertação da opressão secular imposta por uma elite desalmada e impatriótica, um núcleo de pessoas pervertidas e ideologicamente dominante. Alguém vindo desse povo gozando de plenos direitos democráticos e com a autoridade moral que Lula conquistou, faz um estrago incalculável nas barreiras erguidas pelo autoritarismo dessa elite para impedir o avanço popular.
Lula falando à vontade por aí teria o poder de destruir as catedrais que a direita construiu ao longo do tempo para pregar sua ideologia como dogmas de uma religião. Não haveria campanha midiática capaz de se contrapor ao seu carisma e à sua capacidade de dizer verdades com simplicidade, falando a língua do seu povo. Detê-lo passou a ser a missão prioritária dessa mídia. E para isso montaram as farsas do “mensalão” e da “Lava Jato”, fórmula que encontraram para alicerçar seus propósitos criminosos.
Com tudo combinado, chegou o momento de reforçar o ódio nas ruas, mostrando Lula como um ser desprezível. Exatamente quando ele poderia sair pelo país dizendo poucas e boas verdades para impedir a marcha dos golpistas contra a presidenta Dilma Rousseff. A mais recente operação casada judiciário-mídia chegou para acabar com essa possibilidade e abrir espaço para o próximo lance golpista, do qual muito se ouvirá falar na mídia nos próximos dias. Fizeram o piquete para conter Lula e soltar os cachorros loucos do impeachment.
Cabras safados
A ideologização das calúnias nos editorias da mídia é uma forma de armar seus soldados. Recentemente, por exemplo, o Estadão disse, em suas famosas “Notas e informações” (editoriais), que o “cidadão” pode ficar tranquilo porque com a comprovação do “mensalão” e do “petrolão” os dias de Lula e seu bloco na “política” estão contados. Essas confissões das intenções da direita são, para os defensores da democracia e dos direitos do povo, um alerta gravíssimo.
Há uma tradição do Nordeste que pode ser útil nesse momento. É a autoridade que se empresta ao que pertence a alguém por direito. O chapéu de couro é o seu habeas corpus. Se for pendurado em uma cerca de um terreno litigioso, por exemplo, quem o derruba afronta o valente a quem ele pertence. Quem desrespeita o chapéu, desrespeita o dono. Lula tem a autoridade do chapéu de couro, simbolizado pelo respeito que granjeou junto ao seu povo. Os coronéis que tentam derrubá-lo devem receber a resposta que um nordestino e seu povo dariam a cabras safados que atentam contra o chapéu de couro.
Fonte: http://outroladodanoticia.com.br/2016/02/13/osvaldo-bertolino-o-chapeu-de-couro-de-luiz-inacio-lula-da-silva/