quarta-feira, 22 de abril de 2015

MINHA GUARANI

Cyro Marcos Silva
Hoje às 14:42






GUARANI, 25 DE MARÇO! Cem anos mais um. Hoje, dia de aniversário.

Antes que as primeiras letras da sua história começassem a ser cravadas na argila desse lugar, o que se sabe é que....

Era uma vez um rio, que deixava ver ao longe insinuantes contornos de suaves montanhas, rio vindo de um outro lugar, passando, cortando e dividindo um tanto de chão, a que resolveram dar o nome de Guarani.

E o rio lá ia, indiferente, cavando sempre mais fundo e engordando larguras, procurando algum outro rio ou mar pra desaguar, pois já nem caberia na tão pequena Guarani. Gente?

}Já tinha gente: ali veio um, mais um, já podia ter nome de povo...

 Enfim, mais história está contada por aí. Eis, portanto, um lugar em que nossos pais estavam.

E deu que ali viemos ao mundo. E o que é Guarani?

Um clima, um tempo, um lugar onde, desde seu próprio nascer, ali se nasce, se vive, se morre. Lugar de onde se parte, para onde se regressa, porém por lá uns ficam, vivendo na solidariedade em torno das festas maiores, nascimento, casamento e mortes do outros, sempre esfregando nas proximidades, lugar efervescente em torno de amores, de dissabores, das sempre constantes divertidas ou pérfidas fofocas, em torno de choros comungados, alegrias abraçadas, dia a dia muitas vezes monótono, procurando saber quando uma surpresa chegará, para depois melhor saborear a monotonia.

 Olhada lá, lá do alto, lá de muito alto,

 Guarani é um grão de areia perdido no planeta, se ainda visível se fizer. Olhando cá, dentro, o mais perto que puder, o mais encostado possível ao nariz,

Guarani é um mundão de marcas, de lembranças encobridoras investidas de bobos encantamentos, de grandes avalanches dos momentos de inaugurados amores, primeiras decepções, sabores de duras dores, esbranquiçadas fumaças de saudades.

Com o passar do tempo, nossos primeiros tempos já agora dando lugar aos penúltimos tempos, Guarani vai se tornando uma foto amarelada, esmaecida, pelos dedos que já pegaram no preto e branco, uma aposentada passagem de trens, de bailes e carnavais.

Guarani, no entanto, sempre se revive, sempre é suposta ser algum ponto de encontros para nós, nessa altura do campeonato, já bem desencontrados, ainda que encontros marcadamente faltosos.

Para essa senhora de 101 anos que nos dá , num soletrado nome próprio, G U A R A N I, nossa quase única e mínima referência comum, fica aqui escrita essa lembrança de aniversário. Em momentos como este, cabe orientar-se com a escritora francesa Marguerite Duras, que não achava muito importante perguntar: por que escrevo?

Ela, tomada pela escrita, só podia perguntar: por que e como não escrever?

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Numa democracia, quem manda é o povo — e não os juízes.


Por Mauro Santayana

Quando suas decisões afetam não apenas o réu e sua vítima, mas centenas, milhares de cidadãos, o promotor deve acusar e o juiz, julgar, com a mente e o coração voltados para o que ocorrerá, in consequentia.
Nos últimos anos, a nação tem tido, na área de obras públicas, bilhões de reais em prejuízo. E isso não apenas devido a falhas de gestão – que, com a exceção dos Tribunais de Contas, não devem ser analisadas pelo Judiciário – ou de casos de corrupção, alguns com mais de 20 anos.
Houve também a paralisação – a caneta – de grandes obras de infraestrutura. Belo Monte, a terceira maior hidrelétrica do mundo, em construção na Amazônia em um momento que o país precisa desesperadamente de energia, teve suas obras judicialmente suspensas por dezenas de vezes, o que também contribuiu para que se somassem meses, anos de atraso ao seu prazo de entrega; e também para a multiplicação de seus custos.
O mesmo ocorreu com Teles Pires e Santo Antônio, com a refinaria Abreu e Lima e com a transposição do São Francisco. Em todos esses empreendimentos foram encontrados problemas de algum tipo, mas justamente por isso, é preciso que o Ministério Público e o Judiciário busquem outro meio de sanar eventuais falhas e punir irregularidades, que não seja, a priori, a imediata paralisação das obras. Afinal, ainda é melhor obras com problemas, que podem ser eventualmente corrigidos, do que nenhum projeto ou iniciativa desse porte, em setores em que o país esteve praticamente abandonado durante tantos anos.
Uma das soluções, para se evitar esse tipo de atitude drástica, poderia ser a de que se nomeasse interventores que pudessem investigar irregularidades e fiscalizar, in loco, em cada obra, o cumprimento das determinações judiciais.
Declarações bombásticas e precipitadas também não ajudam, quando se trata de projetos essenciais para o desenvolvimento do país nos próximos anos.
No contexto da Operação Lava Jato, centenas de milhares de trabalhadores e milhares de empresas já estão perdendo seus empregos e arriscando-se a ir à falência, porque o Ministério Público, no lugar de separar o joio do trigo, com foco na punição dos corruptos e na recuperação do dinheiro – e de estancar a extensão das consequências negativas do assalto à Petrobras para o restante da população – age como se preferisse maximizá-las, anunciando, ainda antes do término das investigações em curso, a intenção de impor multas punitivas bilionárias às companhias envolvidas, da ordem de dez vezes o prejuízo efetivamente comprovado.
Outro aspecto a considerar é a interferência indevida, em esferas da administração pública que não são da competência do MP, como foi o pedido de paralisação, no mês passado, das obras de ciclovias que estão em execução pela prefeitura de São Paulo.
Não cabe ao Ministério Público, em princípio, julgar, tecnicamente, questões viárias. E menos ainda, limitar o debate e a busca de consenso, em âmbito que envolve a qualidade de vida de metrópoles como a capital paulista, uma das maiores do mundo.
A não ser que haja uma mudança constitucional que faça com que venham a ser escolhidos por meio das urnas – e mesmo que viesse a ocorrer isso – é preciso que o Ministério Público e o Judiciário tenham especial cuidado para que alguns de seus membros não passem a acreditar – e a agir – como se tivessem, com base na meritocracia, sido ungidos por Deus para tutelar os outros poderes, e, principalmente, o povo.
Aos juízes e ao Ministério Público não cabe interferir, de moto próprio, nem tentar substituir o Legislativo ou o Executivo, na administração da União, dos Estados e municípios, que devem recorrer ao Supremo Tribunal Federal sempre que isso ocorra, assim como cabe ao STF coibir, com base na Constituição, esses eventuais excessos.
Em uma democracia, todo o poder emana do povo.
É ele que comanda. É ele que, em última instância, executa. É ele que, indiretamente, legisla. É ele que, a cada dois anos, julga, por meio do processo eleitoral, segundo o rito político. A sua sentença é o voto.
O eleitor é o Estado. E o juiz supremo

domingo, 29 de março de 2015

O radical classe média


Por Daniel Menezes *
Geralmente, o Radical Classe Média se apresenta como politizado, para, na verdade, repetir os velhos cacoetes do senso comum da política - é contra partidos;
Mais. Todo político é ladrão. Aliás, para o Radical Classe Média, o problema do Brasil não é o da desigualdade, mas o da corrupção. Por isso, não perde a oportunidade de comparar a nossa suposta natural propensão para a malandragem com a sonhada condição positiva dos EUA, ou numa perspectiva intelectualizada, dos países escandinavos;
Nesse sentido, a eleição não passa de uma chantagem. Tanto faz quem vai ganhar - "é tudo igual mesmo". O Radical Classe Média, quando não é capturado pelo moralismo e/ou suposta superioridade gerencial de um bonachão, prega o voto nulo;
Radical Classe Média não gosta muito de se "misturar". Quer exclusividade. No fundo, ele não suporta que ônibus coletivo passe nas praias "nobres" de sua cidade. Ou, em sua versão intelectual, defende a criação de "espaços" para os mais "humildes";
Para o Radical Classe Média, as instituições devem aprender a se relacionar com ele, já que o dito cujo apresenta muitas especificidades;
Instituição a favor dele é democracia. Contra ele? Fascismo;
Seguranças-policiais-trabalhadores devem fazer cursos de capacitação só para aprenderem a se relacionar com ele;
Ele é anarquista para os deveres, mas não para os direitos;
Ele é contra impostos, mas quer que tudo funcione a seu favor;
Um bom Radical Classe Média critica o inchaço do Estado, mas sempre tem alguém da família gozando de acesso privilegiado ao próprio Estado - um cargo, um contrato etc;
Radical Classe Média não tem diploma de graduação. Ele tem diploma de nobreza. E o "resto"? É resto, alienado. Ele se vê como o (único) "intelectual orgânico";
Ele é terminantemente contra o Bolsa Família, a quem ele chama de bolsa-esmola, pois produz preguiçosos e premia quem nunca "quis" estudar;
Para o Radical Classe Média, quem não sabe escrever o português corretamente deveria ser impedido de votar, de expor sua opinião num blog ou jornal. Enfim, de argumentar;
Pensar é sinônimo de dominar a gramática. Do contrário, o dito cujo se encontra no nível dos animais irracionais;
Para ele, às vezes, o problema do Brasil é porque o pobre-analfabeto - ele chama de "não esclarecido" - não sabe votar. Uma cientista política advinda da USP teria um bom conceito radical de classe média para isso - ausência de "sofisticação política";

Na versão intelectualizada, o Radical Classe Média é um crítico do jeitinho brasileiro, gosta de ler Nietzsche, Foucault, Deleuze, Guatarri. É um crítico do "micropoder", dos "fascismos da norma", conceitos mobilizados para negar qualquer coisa que lhe cobre alguma contrapartida social;
Há também aquelas versões do Radical Classe Média que tornam Karl Marx, ou o socialismo, numa questão de superioridade ético-moral;
Radical Classe Média é um supercidadão. Os demais... subcidadãos;
Afinal, o Radical Classe Média estudou. Merece mais do que os simples mortais;

Radical Classe Média se imagina como o que resta de bom no Brasil. Não raro, flerta com o fascismo.

sábado, 28 de março de 2015

Homo ignorans


Pessoas inteligentes e informadas conseguem ignorar o gigantesco desvio de recursos através dos bancos, e culpam o eterno bode expiatório que é o governo.
Por: Ladislau Dowbor, 
27/03/2015
401(K) 2012 / Flickr
O homo sapiens todos conhecemos. Inclusive a maior parte da teoria econômica e das teorias das transformações sociais se baseia numa compreensão otimista de que o homem absorve conhecimentos, confronta-os com os seus objetivos racionalmente entendidos, e procede de acordo. Quando erra, analisa os erros e corrige a sua visão para não repeti-los.

Naturalmente, é agradável pensarmos que somos, conforme aprendi na escola, animais racionais, racionalidade que nos separaria confortavelmente dos animais. As minhas dúvidas aumentam proporcionalmente à minha idade, o que significa que são elevadas. Pensar que somos mais do que somos é uma atitude muito difundida. A bíblia já abre com o tom adequado: Deus nos criou à sua imagem e semelhança, o que implica por virtude dos espelhos que somos semelhantes nada mais nada menos que a Ele. O tamanho desta pretensão, e o fato de passar tão desapercebida e natural, já mostra a que ponto a nossa racionalidade pode ser adaptada ao que é agradável, mas não necessariamente ao que é verdadeiro.

Pensar na dimensão irracional da nossa inteligência, ou nas raízes interessadas e ideologicamente deformadas do que nos parece racionalmente verdadeiro, é muito interessante. Fazemos uma construção racional em cima de fundamentos profundamente enterrados na confusão de paixões, medos, ódios e sentimentos contraditórios. Quanto maior o preconceito – no sentido literal, raiz emocional que assume a postura antes do entendimento – maior parece ser a busca do sentimento de superioridade moral.

Devemos lembrar como foram denunciados e massacrados ou ridicularizados os que lutaram pelo fim da escravidão, pelo fim da discriminação racial, pelos direitos de organização dos trabalhadores, pelo voto universal, pelos direitos das mulheres? A imensa batalha que foi chegar ao intelecto dos dominantes que um povo colonizar outro não dá certo? Hoje é a mesma luta pela redução das desigualdades, pelo fim da destruição do planeta, pela democratização de uma sociedade asfixiada por interesses econômicos. Aqui precisamos de muito bom senso e generosidade. Ou seja, emoções e indignações sim, mas apoiadas na inteligência do que acontece no mundo e visando o interesse maior de todos, e não no interesse particular de defesa dos privilégios.

Aqui realmente é preciso de muita ignorância, ou seja, desconhecimento (voluntário ou não), para não se dar conta dos desafios reais. O aquecimento global é uma ameaça real, mas a direita tende a negar, como se o termômetro e os gazes de efeito de estufa fossem de esquerda. O desmatamento generalizado do planeta está levando a perdas de solo fértil em grande escala, quando iremos precisar de mais área de plantio. A vida nos mares está sendo esgotada pela sobrepesca e em 40 anos, segundo o WWF, perdemos 52% da vida vertebrada no planeta. É um desastre planetário espantoso, mas não aparece na mídia comercial. Os dados sobre a inviabilização ambiental do planeta são hoje amplamente comprovados. Há controvérsias, nos dizem. Mas é questão de opinião ou de conhecimento dos dados?
No plano social é mais impressionante ainda: até o Fórum Econômico em Davos escuta e divulga as pesquisas da Oxfam, do Banco Mundial e das Nações Unidas, dos inúmeros institutos de pesquisa estatística em todos os países sobre a desigualdade crescente da renda. Pior, temos agora os dados da desigualdade do patrimônio acumulado das famílias – 85 famílias são donas de mais riqueza acumulada do que 3,5 bilhões de pessoas na base da pirâmide social – gerando tensões insustentáveis. Mas em Wall Street enchem a boca e declaram “greed is good”. Sobre esta desigualdade de patrimônio uma das principais fontes é o Crédit Suisse, que tem boas razões para entender tudo de fortunas familiares. Nem os dados da própria direita parecem convencer a direita, se não confirmam os seus preconceitos.

Vamos tampar os olhos e fazer de conta que acreditamos que é possível manter a paz política e social num planeta onde 1,3 bilhões não têm acesso à luz elétrica, 2 bilhões não têm acesso a fontes decentes de água, e 850 milhões passam fome? Tem sentido acreditar no bom pobre¸ que se resigna e aceita, quando hoje até no último degrau da pobreza há uma consciência do direito a ter uma escola decente para o filho, saúde básica para a família? Aqui já não são apenas os olhos e os ouvidos que estão tapados, e sim a própria inteligência. O homo ignorans raciocina com o fígado.

E porque toda esta riqueza acumulada no topo não serve para as reconversões tecnológicas que nos permitam salvar o planeta, e para financiar as políticas sociais e inclusão produtiva capaz de reduzir as desigualdades? Basicamente porque está situada em paraísos fiscais, aplicada em sistemas de especulação financeira, sequer orientada para investimentos produtivos tradicionais. Os 737 grupos que controlam 80% das atividades corporativas do planeta são essencialmente grupos financeiros. Fonte? O Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica. São recursos que não só se aplicam em especulação financeira em vez de financiar investimentos produtivos, como migram para paraísos fiscais onde não pagam impostos. O Economist estima que sejam 20 trilhões de dólares, um pouco menos de um terço do PIB mundial.
O Brasil tem cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais, da ordem de 25% do PIB. O HSBC que o diga. Mas no Brasil a grande vitória é a eliminação da CPMF que cobrava ridículos 0,38% sobre movimentações financeiras. No Brasil pessoas inteligentes e informadas conseguem ignorar o gigantesco desvio de recursos através dos grandes intermediários financeiros, e culpam o eterno bode expiatório que é o governo. Em particular quando comete o pecado de melhorar a condição dos pobres. Ainda bem que temos a corrupção para canalizar a atenção e os ódios. O uso produtivo dos recursos não seria mais inteligente?

Não há nenhuma confusão sobre as dimensões propositivas: se estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria que pouco produz e muito especula, trata-se de tributar a riqueza improdutiva para financiar as políticas tecnológicas, ambientais e sociais indispensáveis aos equilíbrios do planeta. Com Ignacy Sachs e Carlos Lopes apontamos rumos básicos no documento Crises e Oportunidades em Tempos de Mudança, não são ideias que faltam: falta muita gente que tampa o sol com a peneira dos seus interesses se dar conta dos desafios reais que enfrentamos. Aliás, o norte é bem simples: toda política que reduz as desigualdades, protege o meio ambiente, e tributa capitais improdutivos contribui não para salvar um governo, mas para nos salvar a todos. E um país do tamanho do Brasil tem como trunfo fundamental, nesta época de turbulências planetárias, a possibilidade de ampliar a base econômica interna através da inclusão produtiva.

Confesso que ando preocupado. Parece que quanto maior a bobagem declarada, maior o sentimento de superioridade moral. E o ódio, esta eterna ferramenta dos preconceituosos, é um sentimento agradável quando se consegue encobrir o interesse com um véu de ética. Nesta nossa guerra permanente entre o frágil homo sapiens e o poderoso e arrogante homo ignorans, a olhar pelo mundo afora, e pelos gritos histéricos de extremistas por toda parte – sempre em nome de elevados sentimentos morais e com  amplas justificações racionais – o direito ao ódio parece superar todos os outros. Pobre Deus, nosso semelhante.

domingo, 1 de março de 2015

CCC, a Cartilha Coxinha de Conduta


Texto imperdível de Alexandre de Oliveira Périgo

Artigo primeiro: Nem toda pessoa de esquerda é “petista” ou ”petralha”, ó tartamudeante coxinha. Usar tal denominação e generalização apenas demonstra sua profunda miopia em relação a conjuntura política nacional e internacional.

Parágrafo único: Denotar aspecto pejorativo ao termo “petista” é mero e vil preconceito, ó direitoso coxinha (vide artigo sexto). Petistas são, via de regra, gente muito bacana.

Artigo segundo: Não use o termo “esquerda caviar”, ó amantíssimo coxinha; ele entrega sua limitação cognitiva de forma cabal. Entenda de uma vez por todas: há sim pessoas humanistas que dentro da realidade capitalista que se impõe ganham dinheiro e nem por isso se tornam menos socialistas ou abandonam seus ideais de esquerda. Sou solidário à sua dificuldade de absorção da realidade, contudo esteja ciente que nem todo comunista é pobre, barbudo, mal ajambrado e sujo consoante seu limitadíssimo imaginário.

Artigo terceiro: Comunismo não tem nenhuma relação com “invasão de casas de veraneio por descamisados”, nem com “divisão de salários com mendigos”, ó odioso coxinha. Mendigos são frutos do capitalismo. E tampouco há um “golpe comunista em curso” no Brasil, pois o PT não é um partido comunista, muito longe disso. Considerável porcentagem das medidas petistas no governo federal privilegiam o mercado financeiro e a parte mais abonada da população. Sendo assim, informe-se antes de zurrar pudins de ignorância dos mais fétidos sabores e que machucam os tímpanos de qualquer interlocutor um pouco mais consciente que um banquinho manco de boteco.

Parágrafo único: Há sim Marxistas críticos e que acham que a experiência soviética foi um rotundo fracasso, ó extremista coxinha; todavia nem por isso tiram do centro de suas problematizações a nefasta lógica capitalista de acumulação de capital e nem abrem mão das ululantes demandas do proletariado do século XXI. Assim, pare de usar o termo “Marxismo” associado a Stalin e aberrações congêneres e, se possível, leia mais que 3 linhas no Google sobre Marx antes de escrever suas brilhantes teses sobre esse grande pensador.

Artigo quarto: Dobre sua enorme língua e limpe seus perdigotos infectados com toneladas de vírus atemporais de burrice antes de chamar os valentes e heroicos combatentes da ditadura de “terroristas”, ó troglodita coxinha; terroristas propriamente ditos são os malditos milicos que matavam primeiro, perguntavam o nome depois e que hoje se escondem, covardes que são, atrás das saias da Lei da Anistia e de mentiras deslavadas à Comissão da Verdade. É graças a gente como Dilma, que usou sua juventude para pegar em armas e não gastou suas noites nos bailinhos dos anos dourados embalados pela alienada “jovem guarda” que você pode hoje se manifestar como quiser, inclusive para criticá-la. E por obsequio, não me venha com essa esparramela rotundamente ignóbil de “os terroristas não queriam combater a ditadura, apenas instalar o comunismo no Brasil” pois isso é de uma inverdade histórica que dói conteúdo e continente de meu saco escrotal; estude um pouco e não pronuncie tamanhas bobagens, pois nunca - repito, nunca - nem chegou-se perto de um golpe comunista no Brasil e a intenção de muitos combatentes da ditadura - que nem eram comunistas - resumia-se a pleitear a volta da democracia no país. Quer um exemplo marcante de um valente combatente da ditadura que nunca foi comunista? Lula! Deu, né?

Artigo quinto: Não diga que “esquerdistas querem uma ditadura gay”, ó relinchante coxinha. Não, por favor, mil vezes não! Não existe “ditadura gay”, seja lá o bizarro sentido que você considere para o termo! Os gays têm exatamente os mesmos direitos que você e eu, sem sectarismo de qualquer espécie - contra ou a favor. E pare com esse papo de “se dar ao respeito”, essa colocação é ridícula e explicita que você deveria estar é preocupado com quem fomenta guerra e violência e não com demonstrações de carinho e amor. Simples, não?

Artigo sexto: Não justifique seus preconceitos com uma suposta “liberdade de expressão”, ó obscuro coxinha. Essa liberdade não é infinita tal qual seu ódio e ignorância; ela tem como limite justamente o direito do outro. Não gostar de negros, judeus, ateus, religiosos ou ser machista não é “liberdade de expressão”, mas sim uma putrefata mistura de sectarismo, preconceito, sexismo, misoginia e ignorância. Além de crime.

Artigo sétimo: Pare com essa estupidez de afirmar que “maconha é o primeiro degrau na escalada sem fim rumo às drogas mais pesadas”, ó esfumaçado coxinha. Poupe-me de seus faniquitos moralistas regados a cervejinha; há milhões de pessoas que fazem uso recreativo da maconha - como você faz do álcool e de remedinhos para dormir ou emagrecer - e que jamais injetarão heroína nas veias da têmpora para assaltar sua casa babando e com os olhos esbugalhados e vender sua TV para comprar mais droga. A questão das drogas é séria e portanto demanda serenidade e não grunhidos desta sorte em sua discussão. Fume um baseado lá no cantinho do castigo enquanto pensa a respeito, ok?

Artigo oitavo: Para sua surpresa completa, as pessoas de esquerda e que apoiam o PT nesse segundo turno das eleições não aprovam nem são lenientes com a corrupção, ó probo coxinha. Ao contrário, se manifestam contundentemente para que todos os casos investigados sejam esclarecidos, o que inclui aqueles que envolvem a direita e que foram parar debaixo do tapete da história recente. Quem curte uma corrupçãozinha básica é você, que aplica sua memória e indignação seletivas quando o assunto envolve as falcatruas dos partidos que defende e que não perde a chance de subornar um guarda e outras autoridades públicas, que não respeita as regras mais básicas de convívio social e que adora levar vantagem em tudo. Da próxima vez que baixar o vidro de seu carro para jogar lixo na rua, aproveite e atire também sua hipocrisia para bem longe de mim, por favor.

Artigo nono: Ser contra a diminuição da maioridade penal não é adorar bandido, ó revoltado coxinha. Tome uma vitamina de banana com leite e ponha seus três neurônios para funcionar: ninguém quer ser assaltado, estuprado e nem é conivente com seres humanos que agem de forma atroz e que merecem a punição prevista em lei. Ninguém “pensaria diferente se fosse sua filha” ou quer “levar bandido para morar em sua casa”. Esses argumentos são de um simplismo e ignorância que quase me persuadem a perder as esperanças na espécie humana. Saiba que as pessoas de esquerda entendem que há meios mais humanos e eficazes de se diminuir a criminalidade do que prender e linchar jovens negros e favelados já condenados no nascimento pela herdada exclusão a que estão submetidos. Entenda: a esquerda quer é atacar as causas da violência, enquanto você quer somente metralhar os seus efeitos.

Parágrafo único: a próxima vez que você, ó truculento coxinha, relinchar para mim que “bandido bom é bandido morto” vou sugerir que aplique essa máxima aos bandidos de colarinho branco que frequentam sua sala de estar nos churrascos de domingo, seja pessoalmente seja na TV. E por favor, não escreva mais “estrupo”, pois isso estupra meus ouvidos.

Artigo décimo: Não defenda a meritocracia, ó hidrofóbico coxinha. Se você era pobre e “venceu na vida” isso vai mostrar sua intolerância e desconhecimento das dificuldades dos outros pobres que são diferentes de você; e se você for rico, pior ainda - isso mostra que você é prepotente, folgado e usa dois pesos e duas medidas na vida: um para os pobres e outro para si próprio que teve tudo na vida de mão beijada. Nesse último caso, a vergonha alheia manda um beijinho no ombro.

Parágrafo único: o pobre de direita é um “ornitorrinco social” que merece toda minha solidariedade, ó heterodoxo coxinha. Não é fácil ser o bravo perdigueiro do capital alheio. E se esse for seu caso, deixo a você um breve e incontido recado: os ricos renitentes agradecem sua postura e mandam lembranças lá de Miami, prometendo um empreguinho de doméstica não registrada à sua mãe assim que voltarem da Disney.

Artigo décimo primeiro: Ateus não adoram o demônio nem são pessoas aprioristicamente más ou sem caráter, ó teocrático coxinha. Pare de vociferar esse mantra obscuro onde associa-se bondade e caráter com religiosidade. Hitler era cristão e Chaplin era ateu - e sabe o que isso significa? Absolutamente nada. Entenda de uma vez: todos são ateus com os deuses das outras religiões que não a sua. Eu sou ateu com todos os deuses e exijo respeito.

Artigo décimo segundo: pare de defender o capitalismo usando como exemplos países ricos como os EUA, ó disneylândico coxinha; você pode não saber, mas há milhões de pessoas passando necessidades nesses lugares todavia a grande mídia que você tanto venera e cultua não mostra. Abra os olhos: o problema não é a quantidade de dinheiro, mas o sistema que o concentra nas mãos de poucos.

Parágrafo único: já que mencionei a grande mídia, seja mais questionador e menos massa de manobra, ó crédulo coxinha. Não aceite como verdade absoluta tudo que é veiculado na grande mídia. Ela defende seus próprios interesses e não quer informar você; ao contrário, quer manipulá-lo. Pense - sei que é difícil, mas pense - antes de repetir como um papagaio acéfalo o que vê na Globo ou lê na Folha de São Paulo e lixos afins.

Artigo décimo terceiro: Respeite para ser respeitado, ó perdigotante coxinha. Lembre-se que todo ser humano é diferente de você e isso não é crime, por mais que você pense o contrário. Não invada a página de desconhecidos para xingar ou impor seu ponto de vista cheio de letras maiúsculas e vazio de bom senso. Além de demonstrar total falta de educação, a tentativa de colonização do outro entrega sua falta de espirito democrático, já diria Saramago. Argumentos Ad Hominem só atestam sua truculência exasperada e completa falta de conteúdo.

Parágrafo único: Não arrisque menção a nomes como Aécio Neves ou Olavo de Carvalho, é vergonha na certa, ó falante coxinha; na dúvida, permaneça em silencio. A parte pensante do universo agradecerá imensamente.

Assim concluo os treze artigos de minha cartilha.

E que Tutatis proteja as almas coxinhas, pois seus cérebros já estão comprometidos com a nobre função de peso de papel no jornaleiro da esquina.


Amém?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Leitura de ponta a ser compartilhada diariamente e se necessário de hora em hora!
Esqueçam o que ela escreveu, por Janio de Freitas

Esqueçam o que ela escreveu
Transgênicos e religião associam-se para desmentir de uma só vez duas negações atuais de Marina

Janio de Freitas

O tiroteio verbal entre os candidatos à Presidência está estendido, por balas perdidas de Marina Silva, aos que nos jornais e na internet tratem de suas contradições atuais, pretensos desmentidos e outros malabarismos. Quem se ocupa desses assuntos faz, a seu ver, "uma das ondas de mentira, calúnia e difamação feitas pelo desespero dos nossos [lá dela] adversários". Acusação exposta, agora, em Belo Horizonte.

O assunto pré-sal incluiu-se no centro da disputa eleitoral, o que vale até como indicador de surpreendente atenção de parte do eleitorado por tema assim sério. Daí que Marina procure fugir às restrições ao pré-sal que se ligaram ao seu nome. Mas não é tão simples a solução de culpar terceiros moralmente.

No dia 29 de agosto, formalizada já a substituição de Eduardo Campos, a seleção dos pontos mais importantes do programa de governo de Marina era divulgada com a inclusão desta proposta: "Redução da importância do pré-sal na produção de combustíveis" ("O Globo"). No mesmo dia, entre elogios a usineiros na feira de agronegócios em Sertãozinho (SP), disse Marina: "Temos que sair da Idade do Petróleo. Não é por faltar petróleo, é porque já estamos encontrando outras fontes de energia". Depois, ao responder sobre a restrição ao pré-sal, repetiu: "Há outras fontes de energia".

Marina Silva confirmou, portanto, a restrição presente no programa. E nele incluída pela revisão, para a sua candidatura, do programa do PSB e de Eduardo Campos. A propósito, o comentário feito aqui do novo programa, logo em seguida, notou que Marina Silva dava sinais de ignorar "o que é a Idade do Petróleo, que lhe parece restringir-se à energia". E mencionava a clamorosa falta de percepção para a liderança do petróleo como matéria-prima, em derivados da produção industrial hoje essenciais à vida dita civilizada.

Palavras da própria Marina Silva comprovam que posição avessa às suas restrições ao pré-sal, e ao petróleo mesmo, não é mentirosa, não contém calúnia nem difamação. Ou, a haver, parte dela, ao acusar outros para se desdizer.

A segunda mais importante negação desejada por Marina é o seu condicionamento religioso. Frase sua, reiterada com diferentes formas: "Minhas decisões políticas não são ditadas pela religião". Outra, esta em resposta a Patrícia Poeta e William Bonner no dia 27 de agosto: "Há uma lenda de que sou contra os transgênicos. Mas isso não é verdade".

Colunista do carioca "O Dia", Fernando Molica encontrou ao menos seis discursos da senadora Marina Silva, apenas entre 1998 e 2002, contra os transgênicos. Para contornar resistências, aliás, apresentou um projeto destinado a impedir a utilização dos transgênicos, de início, durante cinco anos. Depois, claro, seriam mais cinco, e outros mais.

Em continuidade, o "blog do Mário Magalhães", no UOL, foi buscar um dos discursos de Marina Silva. Muito instrutivo: a senadora explica que condena os transgênicos com base em "cinco referências bíblicas" e "tendo em vista o lado espiritual". Argumentos que torna mais substanciosos com a reprodução de um salmo em que é recomendado o respeito à integridade das sementes.

Transgênicos e religião associam-se para desmentir de uma só vez duas negações atuais de Marina. Mas não lhe falta também um modo peculiar, e muito adequado para as circunstâncias, de se desmentir. Está na adoção, como candidato a nada menos do que seu vice-presidente, do deputado gaúcho Beto Albuquerque, notório combatente no Congresso a favor dos transgênicos. E detentor de apoio eleitoral e financeiro da indústria de armas, contra a qual Marina Silva já se manifestou.

Fernando Henrique gostaria, ao que disse, de ver Marina Silva e Aécio Neves no mesmo governo. Pelo que as pesquisas sugerem, desejo para esquecer --como tantos outros esquecimentos inesquecíveis.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Por Pablo Villaça

Hoje, um ex-aluno e leitor veio dizer, no Twitter, que "não consegue confiar no governo federal" e que este "não fez nada em quatro anos que inspirasse confiança". Pedi que fosse mais específico em suas críticas, já que é impossível esclarecer o que quer que seja quando alguém se entrega a generalizações. A resposta dele? "As jornadas de junho comprovam" e pronto.

Suspiro.

Pra piorar, mesmo não apresentando um único argumento que sustentasse sua posição, ele imediatamente disse que eu defendia "cegamente" o governo. É o tipo de retórica mais canalha que existe: você ataca, ataca, ataca (mesmo sem argumentos); quando o outro defende, ELE é o "radical", o "cego".

Sabem qual é o problema desses coxinhas? Eles não podem dizer o que querem de verdade: "O governo pensa mais nos pobres do que em mim!", então precisam ficar inventando desculpa. "Podia estar melhor", "O 'mercado' não quer Dilma", blablabla. Não sabem o que foi viver no Brasil na era FHC. Não sabem o que era o desemprego que levava gente com curso superior a fazer prova pra gari. Não sabem o que era ter o país vivendo um apagão. Não sabem o que é ter que escolher entre almoço e jantar - com sorte. O que é um moleque de 9 anos ter que trabalhar pra ajudar em casa. Nao sabem o que era estudar numa universidade federal sucateada e sob ameaça constante de privatização. Não sabem o que era viver de um salário mínimo que não dava pra comprar UMA cesta básica (hoje compra mais de duas). Então ficam no "blablajornadasdejunhoblablamensalãofoiopiorcasodecorrupçãodahistóriablabla".

Sejam honestos, porra! Digam: "PENSO SÓ EM MIM".

Não falem de corrupção pra atacar um governo que fez o que FHC e o PSDB não fizeram e não fazem: permitiu investigação. É MUITO FÁCIL bancar o honesto quando se mantém a imprensa amordaçada. Foi só sair de MG que os podres de Aécio começaram a surgir. Aliás, surgir FORA de Minas, porque aqui os principais jornais continuam calados.

Estou cansado de ter que rebater retórica vazia. Como seria bom ter uma oposição que pensasse, que permitisse debate de igual pra igual. Em vez disso, tenho que passar raiva ouvindo gente falar de "mensalão" e perguntando "quando PT vai devolver dinheiro público". QUE DINHEIRO PÚBLICO? MESMO aceitando que mensalão foi compra de votos (e não foi; foi caixa 2), não houve dinheiro público envolvido. Dinheiro público foram os 100 BILHÕES que a privataria custou ao nosso patrimônio. Mas isso esses idiotas preferem ignorar.

Chega uma hora em que isso começa a cansar.

Ok, eu oferecerei alguns argumentos, mesmo que ele não tenha conseguido:

PIB em bilhões de reais
2002 - 1.477
2013 -4.837
Fonte IPEA

Falências requeridas
2002 -19.891
2013 - 1.758
Fonte IPEA

Inflação
2002 - 12,53%
2013 - 5,91%
Fonte IPEA

Desemprego % mês dezembro
2002 - 10,5
2013 - 4,3
Fonte IPEA

Juros selic
2002-24,9%
2013-11%
Fonte IPEA

Divida pública % do PIB
2002-60,4%
2013-33,8%
Fonte ANDIFES

Salário mínimo em reais
2002- 364,84
2014-724,00
Fonte IPEA

Taxa de pobreza %
2002-34%
2012-15%
Fonte IPEA

IDH
2000-0,669
2005-0,699
2012-0,730
Fonte Estadao

Reservas cambiais em bilhões
2002-38
2013-375
Fonte IPEA Banco mundial

Gastos públicos saúde
2002-28bi
2013-106bi
Fonte orçamento federal

Gastos públicos educação
2002-17bi
2013-94bi
Fonte orçamento federal

Risco Brasil
2002-1.446
2013-224
Fonte IPEA

Economia mundial
2002-14a economia mundial
2013-6a economia mundial.

E mais: como lembrou um leitor, entre 1994 e 2002, houve apenas 48 operações da Polícia Federal; entre 2003 e 2012, houve 1.273 operações, com mais de 15 MIL presos. Em 2003, a Justiça Federal tinha 100 varas pelo país; em 2010, já tinha 513.

Às vezes, penso que Lula e Dilma não deveriam ter dado independência à PF e à Procuradoria-geral. Parece que o pessoal preferia antes, quando nada era investigado e ninguém era punido.

Mas nem seria necessário citar todos esses dados. Como lembrou outro leitor, só por ter reduzido a miséria no Brasil PELA METADE este governo já foi revolucionário e mereceria todos os aplausos do mundo.

Em vez disso, porém, sou obrigado a escutar retórica vazia, sem base e calcada no preconceito e no mais intenso elitismo.

E - VEJAM QUE BELEZA - AINDA ME PREJUDICO PROFISSIONALMENTE, perdendo leitores.

"Eu gostaria mais do Pablo se ele falasse só de Cinema".

E eu seria mais feliz se pudesse fazê-lo. Mas sou cidadão em primeiro lugar. E me recuso a ficar calado e contribuir, por inação, para que o país retroceda nas mãos daqueles que por décadas só se preocuparam em encher os próprios bolsos e em ignorar as necessidades de uma população que merece muito mais do que só uma refeição miserável ao dia.