domingo, 10 de julho de 2011

AMIZADE


AMIZADE

Nos dias atuais a palavra amizade é usada indiscriminadamente para alguma coisa que não é verdadeira; por isto está tão vulgar e desacreditada. Usa-se para conceituar as simples relações encontradas entre os “amigos”: camaradas de café, conhecidos de trabalho, de escola, interesseiros etc. Não podemos confundir tudo isto como a amizade verdadeira, fiel, aquela dos amigos da alma.
Portanto temos que ter em mente as nossas associações e dar diversos graus à amizade: colegas, conhecidos, vizinhos etc. Não confundir o amigo verdadeiro com aquele que simula amizade.

O que é amizade?

Amizade é a comunicabilidade mútua, leal e sincera. É a relação harmoniosa, criadora, desinteressada com o outro, que desenvolve o ser humano dando-lhe novas dimensões, sentido através da criatura o criador. Exige amor, compreensão de todo o passado, presente e futuro que se encontra no íntimo dos homens. Impulsiona o homem a transcender-se, retira-o do seu isolamento, do vazio interior e da solidão. É uma necessidade superior e espontânea, é o alimento da via afetiva. Deve ser expansiva, irradiante, comunicativa, mobilizando o "eu" para tornar-se produtiva e criativa. Seu ponto fundamental é a de alcançar a realização do outro, por isto exige a solidariedade, caridade e muita compreensão. É centralizada no bem, em um amor generoso, verdadeiro, incondicional e universal. Por tudo isto, a sua falta pode ocasionar muitos conflitos psicológicos e emocionais, onde uma das queixas
É o sentimento de solidão, desamparo, desesperança e vazio.
Devemos saber que, quando a amizade é verdadeira, ela nunca se acaba, como bem diz o provérbio: “a amizade que acaba nunca foi amizade”.

A importância da amizade

Como somos seres sociais, reencarnados, desde a vida intra-uterina estamos interagindo com o nosso semelhante, processo natural da nossa condição, dádiva divina para o nosso progresso, para colocarmos em cheque as nossas imperfeições e aptidões.

Observemos as questões:
Questão 766 de “O Livro dos Espíritos” de Kardec: “A vida social está em a natureza? Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação”.

Na questão 768: “Procurando a sociedade, não fará o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou há nesse sentimento algum providencial objetivo de ordem geral?

O homem tem que progredir; insulado, não lhe é possível. Homem nenhum possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem-estar e o progresso. “Por este motivo, precisamos uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e não isolados”.

Refletindo as palavras de Kardec, percebemos que ele fala da verdadeira amizade, quando esclarece que somos sociais e que os homens precisam um dos outros, que aprendem com os semelhantes e que essa relação é importante para o desenvolvimento pessoal e espiritual. Não podemos esquecer que espíritos amigos são colocados em nossos caminhos para ajudar-nos nas tarefas evolutivas.

Amizade deve começar dentro do lar. Ensina-nos a resposta da questão 774 de Kardec:“Há no homem alguma coisa mais, além das necessidades físicas: há a necessidade de progredir. Os laços sociais são necessários ao progresso e os de família mais apertados tornam os primeiros. Eis porque os segundos constituem uma lei da natureza. Quis Deus que, por essa forma, os homens aprendessem a se amar como irmãos”.

Ainda na questão 775: “Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de família? Como resposta, temos: Uma recrudescência de egoísmo”.
Na família, geralmente, estão as pessoas que realmente se amam de forma incondicional e, muitas vezes, quando observamos conflitos e adversidades é porque um ou mais membros se perderam em algum ponto da sua evolução. Lembremos que quem mais amamos muitas vezes é quem mais nos fere profundamente, pois entregamos a ele a chave do nosso coração.

Nos transtornos emocionais a falta da amizade assume uma importância capital, pois nas histórias dos pacientes ela quase sempre está presente. São queixas claras de convívios doentios, falta de compreensão de filhos, disputas entre irmãos e familiares, pais competindo com os filhos, ambientes de trabalho com péssima interação entre as pessoas e perseguições, traições de amigos e parentes, impedindo a verdadeira amizade, ocasionando frustrações, decepções, impondo sentimentos negativos que com o tempo se cronificam e geram os distúrbios emocionais, principalmente os quadros depressivos e ansiosos.

Onde estão os obstáculos?

Reencarnamos e na escala evolutiva é comum querermos conviver com um amigo, fortalecendo os laços da amizade e repudiarmos a presença de um inimigo. Nada acontece por acaso. Se estivermos entre amigos, é porque temos que praticar as boas qualidades da nossa alma e, se entre inimigos, é para sentirmos as nossas deficiências, corrigi-las, se possível, para evoluirmos. É a oportunidade para exercitarmos na prática o perdão àqueles que nos magoaram e nos feriram.

Muitas barreiras que dificultam o relacionamento humano são derivadas do egoísmo e do orgulho. A incapacidade de adaptação é também um impedimento, a pessoa se sente desligada do âmbito social, refugiando-se na fuga, na reclusão.
Kardec no LE, questão 769: “Que se deve pensar dos que vivem em absoluta reclusão, fugindo do pernicioso contato do mundo? Duplo egoísmo é a resposta, porque se esquece da lei do amor e caridade e podem facultar ocasiões para fazer o bem”.

Muitos se afastam da amizade por dificuldade em dedicar-se a alguém, vivendo em função de si, numa fixação egocêntrica, onde busca tudo para si, pensa só em si, produzindo antipatias gratuitas e preocupações doentias. Outras demonstram a incapacidade de doação, fixando-se na fase captativa, reclamadora e exigente. Devido suas fixações não conseguem chegar a um amadurecimento psicológico e espiritual, criam uma falsa realidade que os levam a desilusões, frustrações e fracassos, gênese de muitos distúrbios emocionais.

Como corrigir estas dificuldades?

O homem conduz a sua vida utilizando suas habilidades intelectuais, sua vontade, seu afeto para comunicar-se e age com a sua maturidade espiritual. Este equilíbrio dá-lhe a condição de adulto; portanto suas atitudes devem corresponder a esta dimensão. Para superar dificuldades em comunicar-se amistosamente com os demais, fica claro que esse equilíbrio
(intelecto, afetivo e espiritual) deve estar presente. O respeito pelo limite alheio também é necessário, bem como estabelecer o seu, pois você não sabe muitas vezes precisá-lo.

Duas pessoas, diante da inimizade, quem deve dar o primeiro passo para acabar com a discórdia? Se nenhuma, ambas ainda não estão em condições evolutivas para se compreenderem. Devem pensar em se reformarem para adquirirem esta condição. Uma das duas tomando a iniciativa é porque já se adiantou na escala reformadora; está mais adulta, mais corajosa, mais equilibrada, importando-se mais com o seu próximo e com os ensinamentos de Deus.

O benefício da amizade:

A amizade verdadeira nos conduz a uma comunhão com o Superior; ela é cheia de amor aos pais, parentes, amigos, vizinhos, sendo estes amores lícitos e honestos que fazem o nosso progresso. Ela ensina, transforma e renova.
Sentindo o progresso, podemos sentir também a paz, essa sensação maravilhosa que nos enche de coragem, amor e esperança para que todos nós tenhamos uma vida saudável. Podemos ter a certeza que a amizade verdadeira nos conduz a tudo isto.
Pois, quando não tivermos, nem a presença de um cão como amigo,teremos Deus que nunca abandona seus filhos e é nosso grande Amigo.

sábado, 9 de julho de 2011

O que eu tenho aprendido


O que eu tenho aprendido

Eu tenho aprendido que você não pode fazer alguém amar você.
Tudo o que você pode é ser alguém que possa ser amado.
Eu tenho aprendido que levam anos para construir a confiança,
mas apenas segundos para destruí-la.

Eu tenho aprendido que não é o que você tem na sua vida, mas quem
você tem na sua vida que é o importante.
Eu tenho aprendido que você não deve se comparar com o melhor
que os outros podem fazer, mas com o melhor que você pode fazer.

Eu tenho aprendido que o importante não é o que acontece com as
pessoas. É o que elas fazem em relação a isso.
Eu tenho aprendido que você pode fazer algo em um pequeno instante,
que lhe trará uma grande dor no coração para o resto de sua vida.

Eu tenho aprendido que, por mais fina que seja a fatia,
sempre existem dois lados.
Eu tenho aprendido que é muito mais fácil reagir a ter que pensar.
Eu tenho aprendido que você deve sempre se despedir de pessoas
amadas com palavras carinhosas. Pode ser que seja
a última vez que as vê.

Eu tenho aprendido que você pode continuar indo longe, mesmo
quando você acha que já não pode mais.
Eu tenho aprendido que somos responsáveis pelo que fazemos,
não importando como nos sentimos.

Eu tenho aprendido que ou você controla a sua atitude
ou ela controla você.
Eu tenho aprendido que independente de como é seu relacionamento,
quente e feroz no início, a paixão vai se embora e é melhor ser
algo mais para substitui-la.

Eu tenho aprendido que heróis são as pessoas que fazem o que tem
que ser feito, quando precisa ser feito, independente das conseqüências.
Eu tenho aprendido que aprender a perdoar precisa de prática e sabedoria.

Eu tenho aprendido que existem pessoas que amam muito você, mas
não sabem como expressar isso.
Eu tenho aprendido que meu melhor amigo e eu podemos fazer tudo
ou nada e mesmo assim nos divertirmos muito.

Eu tenho aprendido que às vezes as pessoas que você acha que vão te
chutar quando você esta "down", podem ser as pessoas que vão te
ajudar a te levantar. Eu tenho aprendido que são nas dificuldades que
nos fortalecemos.

Eu tenho aprendido que a verdadeira amizade continua a crescer,
mesmo sobre a maior distância possível.
Eu tenho aprendido que maturidade tem mais a ver com os tipos de
experiência que você já teve e o que aprendeu, do que com quantos
aniversários você já comemorou.

Eu tenho aprendido que não é somente sua família que estará sempre
com você. Pode até parecer estranho, mas mesmo as pessoas que
não estão relacionadas com você, podem cuidar bem de você...

Concorda?

Bom dia!!!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O terror dos rótulos


O terror dos rótulos
Não se pode levar a sério e respeitar pessoas que rotulam crianças classificando-as e fazendo comparações levianas. Ninguém tem o direito de julgar a criança a partir de seu comportamento. Não confundir sua identidade (quem ela é) com seu comportamento (o que ela faz). Não rotular a criança.É desumano ,é uma tremenda falta de sensibilidade.A pessoa precisa compreender que crianças pequenas ,principalmente abaixo de 7 anos percebem melhor que ninguém quando um adulto não gosta dela.E naturalmente reagem com choro ou indiferença. Muitas vezes o adulto não percebe que um comentário dele traz enorme prejuízo à criança.

A antropóloga Ana Luiza Carvalho da Rocha, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz que faz parte da cultura humana julgar os outros com base nos próprios padrões e códigos éticos e morais.

Eliana Braga Atihé, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, complementa o raciocínio: "A classificação reflete a tendência de nossa identidade de se defender da diferença que o outro representa. Rotular é enquadrá-lo numa categoria que o reduza e simplifique para nós. É preciso um esforço para se afastar dos referenciais próprios e observar a beleza da diversidade".

Lembremo-nos que o rótulo é frio, estático, inclemente. Por isso temos que lutar contra a nossa tendência de tudo rotular, colocando mais amor e compreensão em nossos julgamentos. O mesmo amor e compreensão que desejamos para nós mesmos.

Para finalizar descrevo um depoimento de Analu:

Roberta,vc é genial!
Sempre falo isto para meu marido.
Minha enteada é uma criança super esperta, moleca, doce, uma coisinha muito fofa que eu amo muito.
E meu marido adora dizer que "ela é terrível, vai me dar muito trabalho", quando a pequena diz algo muito esperto e surpreendente para a idade dela (aquelas coisas que crianças falam e nos deixam desconcertadas, sabe?

Então, eu sempre falo para ele não dizer estas coisas.
Dou bronca até na minha família, quando começa a dizer que ela é "mais esperta que", "mais bonita que", "que ela é inteligente", "que ela é madura", etc e tal.
Fiz 10 anos de análise e posso dizer que demorei muito para conseguir me livrar destas coisas "positivas" que ouvi a vida toda.
A criança toma tudo "a ferro e fogo", e começa a viver em função dos rótulos que recebe. Nem sempre é um comentário negativo, mas o efeito pode ser.

Eu sempre fui "a mais inteligente", "a mais responsável", "a que não dava trabalho", conclusão: não me permiti ser criança durante muito tempo, perdi muito da minha espontaneidade e não sabia pedir ajuda, tinha medo de decepcionar aqueles que acreditavam que eu "era" tudo aquilo.

Até porque eu os amava e queria ser amada por eles e temia não ser amada se eles "descobrissem" que eu não era tão inteligente, tão madura, tão forte, tão independente ...

Por isso, é importante comentar os feitos das crianças, parabenizar pelos bons, comemorar as vitórias e tal, mas não rotular.
No dia-a-dia é difícil porque todo mundo tem hábito de fazer estes comentários, mas eu procuro chamar a atenção quando fazem perto de mim e não faço DE JEITO NENHUM perto da minha pequena.
Posso até dizer para os outros quando ela não está comigo, mas perto dela...jamais.
Ela tem que ser como é, sem se sentir obrigada a atender qualquer demanda ou se sentir diminuída.
mil beijos Analu

O SOTAQUE DAS MINEIRAS



O SOTAQUE DAS MINEIRAS

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.
Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis
efeitos colaterais,como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque!

Mineira devia nascer com tarja preta avisando:
ouvi-la faz mal à saúde.
Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para
assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que
me ligou por engano,só pelo sotaque.
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem,sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem:
pode parar, dizem: "pó parar").

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas,
supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem -lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é
competente em tal ou qual atividade.
Fala que ele é bom de serviço.

Pouco importa que seja um juiz de direito,um jogador de futebol ou um ator
de filme pornô.
Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de
serviço.

Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra
outra: "cê tá boa?"
Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é
desnecessário.

Vamos supor que você esteja tendo um caso com
uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:
Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados.
Quer
dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido.
Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir.
Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta.
Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo,
você liga e diz:Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não,sô.

Esse "aqui" é outro que só tem aqui.
É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública,
de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar
e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, "olá,
me escutem, por favor".
É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do
interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por".
Dizem, sabe-se lá por que, "pêxonado com".
Soa engraçado aos ouvidos forasteiros.
Ouve-se a toda hora: "Ah, eu pêxonei com ele...".
Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você,
um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas "com" alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras,todo mundo sabe. É um tal de
"bonitim", "fechadim", e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo:
"E aí, vamos?".

Não caia na besteira de esperar um "vamos"
completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela,
mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram. São barradas
pelas montanhas.

No supermercado, não faz muitas compras, ele compra
"um tanto de côsa".
O supermercado não estará lotado, ele terá
"um tanto de gente".
Se a fila do caixa não anda, é porque está
"agarrando" [aliás,"garrando"] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir
um mendigo e ficar com pena,suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que
a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.

Não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro
"caça confusão".
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro,
é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual,
ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: "Ô, é sem noção".
Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora,
idéia do "tanto de bom" que é.
Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo,
porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!!
Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo.
Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer
"ce acha que eu faço isso"? com algumas
toneladas de ironia...
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen,
ela dirá: "Ô dó dôcê".
Entendeu? Não? Deixa para lá.

É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."?
Completo ele fica:- Ah, nem...
O que significa? Significa, amigo leitor,
que a mineira que o pronunciou não
fará o que você propôs de jeito nenhum.
Mas de jeito nenhum.

Você diz: "Meu amor, cê anima de comer
um tropeiro no Mineirão?".
Resposta: "Nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.

Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?".
A pergunta, mineiramente falando, seria:
"cê não anima de ir"?
Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.

É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Falando em "ei...".
As mineiras falam assim, usando, curiosamente,
o "ei" no lugar do "oi".
Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!",
com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...
Tem tantos outros...

O plural, então, é um problema. Um lindo problema,
mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor,
os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer
que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá
comprar umas coisas..
Ques côsa? - ela retrucará.
O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade",
no lugar de "pela metade".
E se você acusar injustamente uma mineira, ela,
chorosa, confidenciará:
Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus
mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou:
"prôcupa não, bobo!".
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas
conjugações mineiras, nem se
espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um:
"não se preocupe", ou algo assim.

A fórmula mineira é sintética. E diz tudo.
Até o "tchau" em Minas é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: "tchau procê", "tchau procês".
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então..."

Um abraço bem apertado procê
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Lula fará palestra no Egito


Lula fará palestra no Egito
O ex-presidente estará no país árabe na próxima terça-feira. Ele vai participar de um fórum sobre oportunidades abertas após a queda do ditador Hosni Mubarak.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ao Egito dar uma palestra na próxima terça-feira (12). Segundo sua assessoria, ele participará de um evento chamado Jobs.Now: Employment in Post-Revolution Egypt (Empregos.Agora: Trabalho no Egito Pós Revolucionário, em tradução livre), que será realizado na Biblioteca de Alexandria.

O tema da apresentação do ex-presidente, de acordo com sua assessoria, será "Transformando a sociedade: uma visão de desenvolvimento econômico e social equilibrado (o caso do Brasil)". O fórum é organizado pela Fundação Nebny, que, segundo seu site na internet, é formada por jovens que participaram dos protestos que culminaram com a queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, em fevereiro.

O objetivo do encontro, de acordo com o site da Biblioteca de Alexandria, é reunir personalidades das áreas política, econômica e social para discutir o futuro do Egito pós-Mubarak. O fórum na cidade mediterrânea terá duração de dois dias e vai contar também com a participação do economista norte-americano Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel.

Além do fórum, outros eventos vão ocorrer no Egito até o dia 18, como parte do festival Egypt Now. A programação inclui shows de música, feira de artesanato, turismo e negócios e encontro de organizações não governamentais. Além de dar destaque às oportunidades abertas com a mudança de regime, as atividades têm por objetivo incentivar o turismo, setor que sofreu com os protestos.

Depois do Egito, Lula deve ir à Tunísia, país que passa também por um momento de transição política. O ex-presidente tem tido uma agenda internacional cheia. Ele esteve na África na semana passada, na Cúpula da União Africana, na Guiné Equatorial, e em Angola. Esta semana ele visitou o Chile, onde se encontrou com o presidente Sebastián Piñera.
Alexandre Rocha alexandre.rocha@anba.com.br São Paulo

domingo, 3 de julho de 2011

ONDE FOI PARAR O TEMPO QUE GANHAMOS?


ONDE FOI PARAR O TEMPO QUE GANHAMOS?
Marcelo Canellas

Havia mais terrenos baldios. E menos canais de televisão.
E mais cachorros vadios. E menos carros na rua.
Havia carroças na rua. E carroceiros fazendo o pregão dos legumes.
E mascates batendo de porta em porta.
E mendigos pedindo pão velho. Por que os mendigos não pedem mais pão velho?

A Velha do Saco assustava as crianças. O saco era de estopa.
Não havia sacos plásticos, levávamos sacolas de palha para o supermercado.
E cascos vazios para trocar por garrafas cheias.
Refrigerante era caro. Só tomávamos no fim de semana.
As latas de cerveja eram de lata mesmo, não eram de alumínio.
Leite vinha num saco. Ou então o leiteiro entregava em casa, em garrafas de vidro.
Cozinhava-se com banha de porco. Toda dona-de-casa tinha uma lata de banha debaixo da pia.

O barbeador era de metal, e a lâmina era trocada de vez em quando. Mas só a lâmina.
As camas tinham suporte para mosquiteiro.
As casas tinham quintais. Os quintais tinham sempre uma laranjeira,
ou uma pereira, ou um pessegueiro.
Comíamos fruta no pé.
Minha vó tinha fogão a lenha. E compotas caseiras abarrotando a despensa.
E chimia de abóbora, e uvada, e pão de casa.

Meu pai tinha um amigo que fumava palheiro.
Era comum fumar palheiro na cidade; tinha-se mais tempo para picar fumo.
Fumo vinha em rolo e cheirava bem.
O café passava pelo coador de pano. As ruas cheiravam a café. Chaleira apitava.
O que há com as chaleiras de hoje que não apitam?

As lojas de discos vendiam long plays e fitas K7.
Supimpa era ter um três-em-um: toca-disco, toca-fita e rádio AM (não havia FM).
Dizia-se 'supimpa', que significa 'bacana'. Pois é, dizia-se 'bacana', saca?
Os telefones tinham disco. Discava-se para alguém. Depois, punha-se o aparelho no gancho.
Telefone tinha gancho. E fio.

Se o seu filho estivesse no quarto dele e você no seu escritório, você dava um berro
pra chamar o guri, em vez de mandar um e-mail ou um recado pelo MSN.
Estou falando de outro milênio, é verdade.

Mas o século passado foi ontem! Isso tudo acontecia há apenas 20 ou 25 anos, não
mais do que o espaço de uma geração.
A vida ficou muito melhor.
Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso.
Então por que engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados?
Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada?

Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?

terça-feira, 28 de junho de 2011

A política


A política

É preciso pensar na política; se não pensarmos o bastante, seremos cruelmente punidos. (Alain)

O homem é um animal sociável: só pode viver e se desenvolver entre seus semelhantes.

Mas também é um animal egoísta. Sua “insociável sociabilidade”, como diz Kant, faz que ele não possa prescindir dos outros nem renunciar, por eles, à satisfação dos seus próprios desejos.

É por isso que necessitamos da política. Para que os conflitos de interesses se resolvam sem recurso à violência. Para que nossas forças se somem em vez de se oporem. Para escapar da guerra, do medo, da barbárie.

É por isso que precisamos de um Estado. Não porque os homens são bons ou justos, mas porque não são. Não porque são solidários, mas para que tenham uma oportunidade de, talvez, vir a sê-lo. Não “por natureza”, não obstante o que diz Aristóteles, mas por cultura, por história, e é isso a própria política: a história em via de se fazer, de se desfazer, de se refazer, de continuar, a história no presente, e é nossa história, e é a única história. Como não se interessar pela política? Seria não se interessar por nada, pois que tudo depende dela.

O que é a política? É a gestão não guerreira dos conflitos, das alianças e das relações de força - não entre indivíduos apenas (como podemos ver na família ou num grupo qualquer) mas na escala de toda uma sociedade. É portanto a arte de viver juntos, num mesmo Estado ou numa mesma Cidade (pólis, em grego), com pessoas que não escolhemos, pelas quais não temos nenhum sentimento particular e que são, sob muitos aspectos, nossas rivais, tanto quanto ou mais até que aliadas. Isso supõe um poder comum e uma luta pelo poder. Isso supõe um governo, e mudanças de governo. Isso supõe choques, mas sujeitos a regras, compromissos, mas provisórios, um acordo enfim sobre a maneira de solucionar os desacordos. Fora disso, só haveria a violência, e é isso que a política, para existir, deve impedir antes de mais nada. Ela começa onde a guerra acaba.

Trata-se de saber quem manda e quem obedece, quem faz a lei, como se diz, e é isso que se chama de soberano. Pode ser um rei ou um déspota (numa monarquia absoluta), pode ser o povo (numa democracia), pode ser um grupo de indivíduos (uma classe social, um partido, uma elite de verdade ou que assim se pretende: uma aristocracia)... Pode ser, e é o que acontece com freqüência, uma mistura singular desses três tipos de regime ou de governo. O caso é que não haveria política sem esse poder, que é o maior de todos, pelo menos nesta terra, e a garantia de todos os outros. Porque “o poder está em toda parte”, como diz Foucault, ou antes, os poderes são incontáveis; mas só podem coexistir sob a autoridade reconhecida ou imposta do mais poderoso dentre eles. Multiplicidade de poderes, unicidade do soberano ou do Estado: toda a política se joga aí, e é por isso que ela é necessária. Vamos nos submeter ao primeiro bruto que aparecer? Ao primeiro liderzinho que se apresentar? Claro que não! Sabemos perfeitamente que é necessário um poder, ou vários, sabemos que é preciso obedecer. Mas não a qualquer um, mas não a qualquer preço. Queremos obedecer livremente: queremos que o poder a que nos submetemos, em vez de abolir o nosso, o fortaleça ou o garanta. Nunca conseguimos isso plenamente. Nunca renunciamos inteiramente a isso. E é por isso que fazemos política. É por isso que continuaremos a fazer. Para sermos mais livres. Para sermos mais felizes. Para sermos mais fortes. Não separadamente ou uns contra os outros, mas “todos juntos”, como diziam os manifestantes do outono de 1995, ou antes, ao mesmo tempo juntos e opostos, já que é preciso, já que, não fosse assim, não precisaríamos de política.

A política supõe a discordância, o conflito, a contradição. Quando todo o mundo está de acordo (por exemplo, para dizer que é melhor a saúde que a doença, ou que a felicidade é preferível à infelicidade...), não é política. E, quando cada um fica no seu canto ou só trata dos seus assuntos pessoais, também não é política. A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir! Isso não tem fim. Engana-se quem anuncia o fim da política: seria o fim da humanidade, o fim da liberdade, o fim da história, que, ao contrário, só podem - e devem - continuar no conflito aceito e superado. A política, como o mar não pára de recomeçar. Porque ela é um combate, e a única paz possível. É o contrário da guerra, repitamos, o que fala o bastante da sua grandeza. É o contrário do estado natural, e isso fala o bastante da sua necessidade. Quem gostaria de viver inteiramente só? Quem gostaria de viver contra todos os outros? O estado natural, mostra Hobbes, é “a guerra de todos contra todos”: a vida dos homens é, então, “solitária, necessitosa, penosa, quase animal, e breve”. Melhor um poder comum, melhor uma lei comum, melhor um Estado comum - melhor a política!

Como viver juntos e para quê? São esses os dois problemas que é preciso resolver, e logo depois tornar a levantar (pois temos o direito de mudar de opinião, de lado, de maioria...). Cabe a cada um refletir sobre eles; cabe a todos debatê-los.

O que é a política? É a vida comum e conflituosa, sob o domínio do Estado e por seu controle; é a arte de tomar, de conservar e de utilizar o poder. É também a arte de compartilhá-lo, mas porque, na verdade, não há outra maneira de tomá-lo.

Seria um erro considerar a política uma atividade unicamente subalterna ou desprezível. O contrário é que é verdade, claro: ocupar-se da vida comum, do destino comum, dos confrontos comuns é uma tarefa essencial, para todo ser humano, e ninguém poderia esquivar-se dela. Você vai deixar o caminho livre para os racistas, os fascistas, os demagogos? Vai deixar uns burocratas decidirem por você? Vai deixar uns tecnocratas ou uns carreiristas imporem a você uma sociedade que seja a cara deles? Com que direito, então, você poderia se queixar de que as coisas vão mal? Como não ser cúmplice do medíocre ou do pior, se você nada faz para impedi-los? A inação não é uma desculpa. A incompetência não é uma desculpa. Não fazer política é renunciar a uma parte do seu poder, o que é sempre perigoso, mas também a uma parte das suas responsabilidades, o que é sempre condenável. O apoliticismo é ao mesmo tempo um erro e uma culpa: é ir contra seus interesses e seus deveres.

Mas também seria um equívoco querer reduzir a política à moral como se ela só se ocupasse do bem, da virtude, do desinteresse. Mais uma vez, o contrário é que é verdade. Se a moral reinasse, não precisaríamos de polícia, de leis, de tribunais, de forças armadas: não precisaríamos de Estado, nem portanto de política! Contar com a moral para vencer a miséria ou a exclusão é, evidentemente, conversa fiada. Contar com o humanitarismo para fazer as vezes de política externa, com a caridade para fazer as vezes de política social e até mesmo com o anti-racismo para fazer as vezes de política de imigração, é evidentemente conversa fiada. Não, claro, que o humanitarismo, a caridade ou o anti-racismo não sejam moralmente necessários; mas porque não poderiam bastar politicamente (se bastassem, não precisaríamos mais de política) nem resolver sozinhos um problema social qualquer.

A moral não tem fronteiras; a política tem. A moral não tem pátria; a política tem. Nem uma nem outra, é claro, poderiam dar à noção de raça qualquer pertinência: a cor da pele não faz nem a humanidade nem a cidadania. Mas a moral não tem nada a ver tampouco com os interesses da França ou dos franceses, da Europa ou dos europeus... Para a moral só existem indivíduos: para a moral só existe a humanidade. Ao passo que qualquer política francesa ou européia, de direita ou de esquerda, só existe, ao contrário, para defender um povo, ou povos, em particular - não, é claro, contra a humanidade, o que seria imoral e suicida, mas prioritariamente, o que a moral não poderia nem impor nem proibir em absoluto.

Você poderia preferir que a moral bastasse, que a humanidade bastasse: você poderia preferir que a política não fosse necessária. Mas estaria se enganando sobre a história e se mentindo sobre nós mesmos.

A política não é o contrário do egoísmo (o que a moral é), mas sua expressão coletiva e conflituosa: trata-se de sermos egoístas juntos, já que essa é a nossa sina, e da maneira mais eficaz possível. Como? Organizando convergências de interesses, e é isso que se chama solidariedade (diferenciando-se da generosidade, que supõe, ao contrário, o desinteresse).

É comum desconhecer essa diferença, razão a mais para insistirmos nela. Ser solidário é defender os interesses do outro, sem dúvida, mas porque eles também são - direta ou indiretamente - os meus. Agindo por ele, também ajo por mim: porque temos os mesmos inimigos ou os mesmos interesses, porque estamos expostos aos mesmos perigos ou aos mesmos ataques. É o caso do sindicalismo, da Seguridade Social ou dos impostos. Quem se consideraria generoso por contribuir para a Seguridade Social, sindicalizar-se ou pagar seus impostos? A generosidade é outra coisa: é defender os interesses do outro, mas não por também serem os meus é defendê-los mesmo que não compartilhe deles - não porque eu ganhe alguma coisa com isso, mas porque ele, o outro, ganha. Agindo por ele, não ajo por mim - pode ser que eu até perca alguma coisa, aliás é o que costuma acontecer. Como conservar o que se dá? Como dar o que se conserva? Não seria mais doação, e sim troca; não seria mais generosidade, e sim solidariedade.

A solidariedade é uma maneira de se defender coletivamente; a generosidade, no limite, é uma maneira de se sacrificar pelos outros. É por isso que a generosidade, moralmente falando, é superior; e é por isso que a solidariedade, social e politicamente, é mais urgente, mais realista, mais eficaz. Ninguém paga a Seguridade Social por generosidade. Ninguém paga seus impostos por generosidade. E que estranho sindicalista o que se associaria a um sindicato unicamente por generosidade! No entanto a Seguridade Social, o sistema tributário e os sindicatos fizeram mais pela justiça - muito mais! - do que o pouco de generosidade de que este ou aquele soube, vez ou outra, dar prova. A mesma coisa vale para a política. Ninguém respeita a lei por generosidade. Ninguém é cidadão por generosidade. Mas o direito e o Estado fizeram muito mais, para a justiça ou para a liberdade, do que os bons sentimentos.

Solidariedade e generosidade nem por isso são incompatíveis: ser generoso não impede de ser solidário; ser solidário não impede de ser generoso. Mas tampouco são equivalentes, e é por isso que nenhuma das duas poderia bastar ou fazer as vezes da outra. Ou melhor, a generosidade talvez bastasse, se fôssemos suficientemente generosos. Mas o somos tão pouco, tão raramente, tão pequenamente... Só precisamos de solidariedade porque carecemos de generosidade, e é por isso que precisamos tanto de solidariedade!

Generosidade: virtude moral. Solidariedade: virtude política. O grande problema do Estado é a regulação e a socialização dos egoísmos. É por isso que ele é necessário. É por isso que é insubstituível. A política não é o reino da moral, do dever, do amor... É o reino das relações de forças e de opiniões, dos interesses e dos conflitos de interesses. Vejam Maquiavel ou Marx. Vejam Hobhes ou Spinoza. A política não é uma forma do altruísmo: é um egoísmo inteligente e socializado. Isso não apenas não a condena mas a justifica: já que todos nós somos uns egoístas, vamos sê-los juntos e inteligentemente! Quem não percebe que a busca paciente e organizada do interesse comum, ou do que se imagina ser tal, é melhor, para quase todos, do que o confronto ou a desordem generalizados? Quem não percebe que a justiça é melhor, para quase todos, que a injustiça? Que isso também é moralmente justificado, é mais que evidente, o que mostra que moral e política, em seu objetivo, não se opõem. Mas que a moral não basta para alcançá-lo, é igualmente evidente, e mostra que moral e política também não poderiam se confundir.

A moral, em seu princípio, é desinteressada; nenhuma política o é.

A moral é universal, ou assim se pretende; toda política é particular.

A moral é solitária (ela só vale na primeira pessoa); toda política é coletiva.

É por isso que a moral não poderia fazer as vezes de política, do mesmo modo que a política não poderia fazer as vezes de moral: precisamos das duas, e da diferença entre as duas!

Uma eleição, salvo excepcionalmente, não opõe bons e maus, mas opõe campos, grupos sociais ou ideológicos, partidos, alianças, interesses, opiniões, prioridades, opções, programas... Que a moral também tenha urna palavra a dizer, é bom lembrar (há votos moralmente condenáveis). Mas isso não nos poderia fazer esquecer que ela não faz as vezes nem de projeto nem de estratégia. O que a moral propõe contra o desemprego, contra a guerra, contra a barbárie? Ela nos diz que é preciso combatê-los, claro, mas não como temos maiores oportunidades de derrotá-los. Ora, politicamente, é o como que importa. Você é a favor da justiça e da liberdade? Moralmente falando, é o mínimo que se espera de você. Mas politicamente, isso não lhe diz nem como defendê-las nem como conciliá-las. Você deseja que israelenses e palestinos tenham uma pátria segura e reconhecida, que todos os habitantes de Kosovo possam viver em paz, que a globalização econômica não se produza em detrimento dos povos e dos indivíduos, que todos os idosos possam ter uma aposentadoria decente, todos os jovens uma educação digna desse nome? A moral aplaude, mas não lhe diz como aumentar nossas possibilidades de, juntos, alcançar esses objetivos. E quem pode acreditar que a economia e o livre jogo do mercado bastam para tanto? O mercado só vale para as mercadorias.

Ora, o mundo não é uma. Ora, a justiça não é uma. Ora, a liberdade não é uma. Que loucura seria confiar ao mercado o que não é para se comercializar! Quanto às empresas, elas tendem antes de mais nada ao lucro. Não as critico por isso: é a função delas, e desse lucro todos nós necessitamos. Mas quem pode acreditar que o lucro baste para fazer que uma sociedade seja humana? A economia produz riquezas, e riquezas são necessárias, e nunca serão demais. Mas também precisamos de justiça, de liberdade, de segurança, de paz, de fraternidade, de projetos, de ideais... Não há mercado que os forneça. É por isso que é preciso fazer política: porque a moral não basta, porque a economia não basta e, portanto, porque seria moralmente condenável e economicamente desastroso pretender contentar-se com uma e outra.

Por que a política? Porque não somos nem santos nem apenas consumidores, porque somos cidadãos, porque devemos ser cidadãos e para que possamos permanecer cidadãos.

Quanto aos que fazem da política sua profissão, temos de lhes ser gratos pelos esforços que consagram ao bem comum, sem no entanto nos iludirmos muito sobre a sua competência nem sobre a sua virtude: a vigilância faz parte dos direitos humanos e dos deveres do cidadão.

Não se deve confundir essa vigilância republicana com a ridicularização, que torna tudo ridículo, nem com o desprezo, que torna tudo desprezível. Ser vigilante é não crer cegamente nas palavras dos políticos, mas não é condená-los ou denegri-los por princípio. Não conseguiremos reabilitar a política, como é urgente hoje em dia, cuspindo perpetuamente em quem faz política. No Estado democrático, temos os homens políticos que merecemos. Razão a mais para preferir esse regime a todos os outros: só tem moralmente direito de se queixar dele - e, é claro, motivos é que não faltam! - quem age, com outros, para transformá-lo.

Não basta esperar a justiça, a paz, a liberdade, a prosperidade... É preciso agir para defendê-las, para aprimorá-las, o que só se pode fazer eficazmente de forma coletiva e que, por isso, passa necessariamente pela política. Que esta não se reduza nem à moral nem à economia, já insisti o bastante. O que não significa, lembremos para terminar, que ela seja moralmente indiferente ou economicamente sem alcance. Para todo indivíduo apegado aos direitos humanos e ao seu próprio bem-estar, interessar-se pela política não é apenas seu direito, é também seu dever e seu interesse - é a única maneira, sem dúvida, de conciliá-los mais ou menos. Entre a lei da selva e a lei do amor, há a lei pura e simples. Entre o angelismo e a barbárie, há a política. Anjos poderiam prescindir dela. Animais poderiam prescindir dela. Homens, não. É por isso que Aristóteles tinha razão, pelo menos nesse sentido, quando escrevia que “o homem é um animal político”: porque, sem a política, ele não poderia assumir inteiramente sua humanidade.

“Fazer bem o homem” (a moral) não basta. É necessário também fazer uma sociedade que seja humana (já que é a sociedade, sob muitos aspectos, que faz o homem), e por isso é necessário refazê-la sempre, pelo menos em parte. O mundo não pára de mudar; uma sociedade que não mudasse estaria fadada à ruína. Portanto é preciso agir, lutar, resistir, inventar, salvaguardar, transformar... É para isso que serve a política. Há tarefas mais interessantes? Pode ser. Mas não há, na escala da sociedade, tarefas mais urgentes. A história não espera; não fique bobamente esperando-a!

A história não é um destino, nem somente o que nos faz: ela é o que fazemos, juntos, do que nos faz, e isso é a própria política.André Comte-Sponville