sexta-feira, 13 de julho de 2012


A orfandade das derrotas

Ouvindo uma intervenção em um seminário, imaginei que a pessoa que intervinha tratava de explicar porque o Brasil deu erado. Uma visão linear, em que todas as catástrofes que alguns tinham prognosticado, teriam se realizado. Nada de bom, de resgatável. Mesmo a diminuição da desigualdade seria um engano. Parecia o discurso de alguém que dizia: - “Viu? Nós, que achávamos que o governo Lula ia fracassar, ia ser uma continuidade do neoliberalismo, tínhamos razão e convencemos o povo disto, daí o fracasso do Lula. Deu tudo errado, como prevíamos, por isso o povo finalmente reconheceu que tínhamos razão, derrotou o governo e nos deu uma votação espetacular.”

Incrível, nem parecia que estamos no Brasil, que os que professam esse discurso tiveram 1% dos votos, enquanto que o Lula saía do governo com um apoio extraordinário da população e elegia sua sucessora.

Eu fico imaginando como é a cabeça, a vida, o cotidiano, a relação com o povo, com o Brasil, com o mundo, de quem ainda pensa assim. Será como Marx se referia à pequena burguesia, que sai fragorosamente derrotada das eleições, dizendo-se que o povo ainda não está preparado para seus discursos. Nunca questionam seus discursos, suas posições. É o povo que não está ainda amadurecido. Voltarão de novo, de novo, com o mesmo discurso, até que o povo entenda que eles dizem a verdade.

O que podem pensar do julgamento popular? Não aprendem com a realidade? Poderiam dizer que as eleições não refletem fielmente o que o povo pensa. Mas tampouco conseguem organizar qualquer manifestação popular com participação de um mínimo de pessoas, não constroem sindicatos ou outras formas de organização popular, vivem no maior isolamento em relação ao povo. Daí também que façam um discurso fora do mundo.

Continuam a pregar as mesmas coisas, a fazer as mesmas denúncias. Nunca se perguntam se estão errados e o povo está certo. Se esse projeto fracassou e haveria que repensar os caminhos que adotaram. Nunca se perguntam se estão desarraigados da realidade, isolados do povo, desencontrados com seus interesses. Se estão em um mundinho pequeno, frequentando mais os livros do que a realidade?

Lendo balanços da dura derrota que a esquerda portuguesa – a radical, também – sofreu nas eleições, vejo apenas a crítica do governo por parte dos setores mais radicais, sem explicar porque foi a direita que capitalizou o fracasso do governo socialista e não eles, que perderam tantos votos quanto o Partido Socialista. Se limitam à critica do governo, que teria a responsabilidade de tudo. A responsabilidade sempre é dos outros, que é a melhor maneira de não tirar lição alguma dos erros cometidos, o que significa que voltarão, nas próximas eleições, a agir da mesma maneira e, certamente, ter uma derrota anda maior.

A realidade não é somente o critério da verdade, como é implacável com os nossos erros. Por isso alguns estão vitoriosos, reconhecidos pelo povo, enquanto outros estão reduzidos a discursos fora da realidade que os rejeitou e à intranscendência. 
Postado por Emir Sader 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Política, para que política?



A gente não quer só comida, mas o que a gente quer?
A gente já não quer só saída, mas onde é que a gente está?
A gente não quer só promessa, mas o que é que a gente faz?

“Política não se discute”: o que não se discute é a necessidade de discutir política, de pensar, todos os dias, que tudo começa a partir da ação de um único indivíduo, o eu - você. O que não se discute é a verdade universal de sermos cidadãos de direito e, como tais, termos a honrada missão de estar cientes do que se passa em nossa volta. O que não se discute é que todos, sem exceção, somos responsáveis diretos pelo país que construímos.

É fácil – repito, fácil – culpar aqueles que estão distantes. É fácil apontar os dedos para os nossos governantes e atribuir a eles tudo quanto há de errado no mundo. É fácil falar de uma sociedade problemática sem nos colocarmos dentro dela. É cômodo derramarmos mil lágrimas sob a corrupção e não nos darmos ao trabalho de analisar o candidato que nos sorri na urna de votação. É cômodo repetirmos, aos quatro cantos, que tudo está errado no mundo e não abrirmos nossos olhos para o que está sendo feito para melhorá-lo. É comodíssimo partirmos da ideia de que não adianta tentar. É conveniente criticar os que criticam.

Por definição, política é arte. Mas não é – ou não deveria ser – a arte falha da encenação, com plateia e roteiros definidos. Arte do improviso, menos ‘stand up’.

“Não gosto de política, mas gostaria de ter um trânsito seguro, uma escola pública eficaz, um hospital que me privasse do pagamento de um plano particular”.

“Não gosto de política, mas queria que o meu filho não fosse obrigado a estudar em uma Universidade no outro canto do país porque no meu estado não há vagas”.

“Não gosto de política, mas acharia ótimo se os impostos que me cobram fossem bem aplicados, que a violência diminuísse, que não houvesse esgotos a céu aberto no meu bairro”.
“Definitivamente, não gosto de política. Mas como gostaria de ver o Brasil dando certo e ‘fazendo bonito’ lá fora!”.
Há a política. Há os políticos. Há os que a constroem mal e porcamente. E  existe todo o resto.
"Lembre-se: quem tem nojo de política é governado por quem não tem."*
Poderíamos, então, nos enojar pelo que nos é de direito?
*Frei Betto - Revista Caros Amigos, Janeiro - 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012


Overdose de diagnósticosÉ raro encontrar uma criança em idade escolar que não use remédio para domar a hiperatividade ou desatenção. Adultos e jovens adotam o cloridrato de metilfenidato para ter boa concentração em dia de prova ou no trabalho. Sites comercializam a droga e trazem depoimentos de usuários

Luciane Evans
Maria Isabel* e a filha, Letícia* (nomes fictícios): a menina usou o remédio dos 8 aos 11 anos e só falava em morrer. A mãe optou por interromper o tratamento
Maria Isabel* e a filha, Letícia* (nomes fictícios): a menina usou o remédio dos  8 aos 11 anos e só falava em morrer. A mãe optou por interromper o tratamento (Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press )

Crianças confusas, agitadas, desatentas, que não conseguem acompanhar o ritmo da escola. Educadores sem preparo para lidar com alunos que necessitam de mais atenção. Pais sem tempo e cheio de dúvidas em relação à educação dos filhos. Médicos que encontram um diagnóstico para responder a todas essas questões e “sossegar” esse desespero. As “drogas da obediência”,  assim chamadas as medicações Concerta e Ritalina, que têm como princípio ativo o  cloridrato de metilfenidato, são receitadas para quem sofre do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), e estão sendo vendidas, tanto para os diagnósticos corretos, incorretos e até para quem sequer tem suspeita do distúrbio, conforme vem mostrando a série de reportagens do Estado de Minas publicada desde segunda-feira. 

Apesar dos medicamentos serem tarja preta – classificação que indica se tratar de remédio de alto risco para o paciente, pois ativa o sistema nervoso central (SNC) ou provoca ação sedativa e, por este motivo, pode causar dependência física ou psíquica – e somente comprados com receita especial, o acesso às drogas é fácil. Além das crianças, o cloridrato de metilfenidato tem sido amplamente usado por jovens que querem se dar bem em provas e por adultos que precisam enfrentar uma reunião, um concurso ou mesmo falar em público, diante de uma apresentação de trabalho.

Pelas escolas particulares de Belo Horizonte é difícil encontrar uma criança que não esteja sendo medicada. “Tudo virou TDAH. Fui chamada pela escola do meu filho, me disseram que ele tem que tomar Ritalina. O ensino está cada vez mais apertado e, quem não dá conta dele, tem que ser dopado?”, questiona uma mãe, que prefere não se identificar. Seu dilema é o mesmo de centenas de pais que neste exato momento devem estar na sala da diretoria recebendo o mesmo diagnóstico para o filho. 

Foi assim com Letícia*, hoje com 16 anos. Ela estudava em uma escola particular de BH, que cobrava muito no ensino. “Ela não conseguia acompanhar. Aos 8 anos ela foi diagnosticada com o TDAH e, durante três anos foi medicada com Ritalina. Foram os piores anos da minha filha. Ela não se adaptou ao medicamento, teve depressão e só falava em morrer”, conta Maria Isabel*, mãe da menina. Desconfiada com o medicamento que só poderia ser usado durante as aulas, sendo suspenso nos fins de semana, férias e feriados, Isabel mudou a menina da escola que não lhe deu apoio e a transferiu para outra com nível de cobrança mais leve. “Suspendi o remédio e passei a fazer um acompanhamento com psicólogos. A autoestima dela melhorou. Hoje faz inglês e está no 2º ano do ensino médio”, conta.

De acordo com a consultora pedagógica do Sindicato das Escolas Particulares de BH e especialista em educação infantil, Renata Gazzinelli, está cada vez mais comum alunos com diagnóstico de desatenção e hiperatividade e muitos professores não estão preparados para lidar com o problema. “Apesar de muitas escolas contarem com um corpo de psicopedagogos e psicólogos, que têm conhecimento no assunto, há as que não têm essa estrutura, dependendo da percepção de professores para os casos.” Para ela, o que dificulta essa observação é que na sala de aula com 35 alunos há um com necessidade especial, cujos pais querem mantê-lo nessa instituição. “Mas, muitas vezes, ele não tem o perfil. Então, os pais deve se perguntar se o filho é para aquela escola; se não é hora de repensar uma forma mais leve de estudos que não seja tão firme. Só que a escola muitas vezes não dá conta de lidar com essa criança. Então, falta às vezes, esse limite das famílias. Aí, eles caem nas mãos de médicos que estão afim de resolver o problema e pegar o próximo cliente”, avalia.

 FILHOS DO ESTRESSE Renata Gazzinelli diz que o número de crianças e jovens sem limites tem sido um absurdo nas instituições escolares. “Eles fazem o que querem e parecem um carro desgovernado. São os filhos do estresse. E os educadores ficam de mãos atadas, pois os cursos de pedagogia não os preparam para isso. Os professores se tornaram refém da situação e a escola se vê também em outros dilemas, com professores mal formados, gestão frágil e escassez de bons profissionais. A família põe a culpa dos transtornos dos filhos nas escolas, mas não participam do ambiente escolar. Se não dermos as mãos, não sairemos desse círculo.”

 De acordo com a psicóloga Juliana Baldo, do setor de psicologia educacional do tradicional Colégio Santo Antônio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, realmente tem havido muitos equívocos médicos para uso das medicações. “Aqui, primeiro investigamos com cautela, pois a desatenção é causada por muitos fatores. Temos percebido que há muitas crianças sendo medicadas e cujo diagnóstico real não é de TDAH. Nosso setor de psicologia tem feito uma discussão sobre esse aumento no uso do remédio. É um fenômeno social, da educação privada”, diz.
 
>> OS SUBNOTIFICADOS DA REDE PÚBLICA 

Enquanto jorram diagnósticos para TDAH em meninos e meninas das escolas privadas, na rede pública o caminho é inverso. De acordo com estudo em andamento pelo setor de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o transtorno tem passado despercebido nas instituições de Belo Horizonte e também do interior do estado. “Ainda não temos a análise completa para divulgar. Mas em uma das escolas analisadas, dos 90 estudantes examinados de 5% a 10% apresentavam o distúrbio, mas nenhum deles estava sendo tratado. Ou seja, se está havendo prescrição excessiva, é da escola particular. Na rede pública, isso está sendo subnotificado”, preocupa-se o professor de psquiatria infantil da UFMG Arthur Kummer, lembrando que os medicamentos via Sistema Único de Saúde ainda não estão disponíveis em Minas, como em outros estados.

No Rio Grande do Sul o problema tem sido o mesmo. De acordo com o professor titular de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e professor de Pós-Graduação em Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Luís Augusto Paim Rodhe, estudo feito em Porto Alegre em 12 escolas públicas examinou 500 crianças com potenciais para o transtorno. “Dessas, 100 confirmaram o TDAH, com prejuízos no aprendizado. Somente três tinham o diagnóstico prévio e tratamento”, pontua.

"Meu filho não queria estudar, não conseguia acompanhar nada do que passavam para ele na escola. Tomou duas bombas. Até que foi diagnosticado com TDAH e medicado. Deu certo. Há quatro anos ele toma o remédio, tem conseguido estudar e já pensa no vestibular.”  

D.D.R., funcionária pública 
 Fonte:Jornal Estado de Minas

"Droga da obediência"

"Droga da obediência" prestes a se tornar epidemia explode no Brasil o consumo de medicamento para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Em nove anos, a venda subiu de 71 mil caixas para 2 milhões


Psicólogos estão preocupados com o grande número de alunos que usam os remédios em
Belo Horizonte

Autoria: Luciane Evans

 Estão prestes a estourar no Brasil as sequelas de um surto mundial silencioso que, aqui, tem tido como principais alvos crianças e adolescentes de classe média. Adultos também integram o grupo. Apontadas por muitos como o veneno da atualidade, mas aceitas por outros como solução mais acertada para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), as ‘drogas da obediência’ – assim conhecidos os medicamentos que têm como princípio ativo o cloridrato de metilfenidato – têm sido consumidas em larga escala no país e também em Belo Horizonte. Em 2006, a capital mineira registrava consumo quatro vezes maior que a média do Brasil, nação que tem o título de segundo maior consumidor mundial do psicotrópico e onde, só em 2009, cerca de 2 milhões de caixas das pílulas foram vendidos. A projeção feita por especialistas é de que, em 2012, esses números sejam muito mais altos.

Para piorar o cenário, não há consenso sobre o uso do medicamento entre a classe médica. Há os que o defendem, garantindo que os remédios cumprem sua função para quem sofre do transtorno; do outro lado, gente que teme o pior ao comparar os efeitos das doses aos da cocaína, alertando que meninos e meninas que usam a droga correm risco de vida. Diante do quadro, em que muitos médicos preocupados com o futuro da nova geração chegam a duvidar até mesmo da existência do TDHA – distúrbio neurológico identificado, na maioria das vezes, na idade escolar, em crianças e adolescentes desatentos, agitados e com dificuldades de aprendizagem .

Na capital mineira, elas têm se tornado “moda” em escolas tradicionais da cidade, preocupando psicólogos que dizem estar diante de um crescimento assombroso no número de alunos medicados. Polêmico, o assunto envolve a indústria farmacêutica, põe em xeque pesquisas científicas e divide a medicina. Não sem razão. Diante da bomba relógio prestes a explodir, laboratórios não divulgam dados de produção nem de vendas. Órgãos públicos, idem; restando ao Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos extrair da publicação de um instituto suíço, que mantém atualizados os dados do mercado farmacêutico brasileiro, assombrosos números que dão o sinal da fumaça.

De acordo com o instituto, em 2000 foram vendidas 71 mil caixas dos psicotrópicos no Brasil, passando para a marca de quase 2 milhões de caixas em 2009. Em São Paulo, onde as drogas são distribuídas via Sistema Único de Saúde (SUS), uma pesquisa de 2011 do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, composto por cerca de 40 entidades, mostrou que 154 municípios paulistanos compraram em 2005 cerca de 55 mil comprimidos da ‘droga da obediência’. Cinco anos depois, o consumo saltou para 946 mil, 17,2 vezes maior. A projeção para 2011 era de que a compra chegasse a 1.493.024 de doses.

Em Minas Gerais, contrariando a vontade de muitos psiquiatras, a medicação ainda não chegou ao SUS, o que configura, para muitos especialistas, a droga da vez da classe média, já que uma caixa, de acordo com a dosagem e variação no número de pílulas, custa entre R$ 20 e R$ 220. Um levantamento do Centro de Estudos de Medicamentos da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) feito com crianças diagnosticadas com TDAH em BH tem números considerados perigosos. “O estudo, ainda em andamento, teve início em 2006 e naquele ano constatamos que a média de consumo da Ritalina em Belo Horizonte era quatro vezes maior que a média nacional e três vezes maior que a projeção calculada para o estado. É preocupante”, alerta o coordenador do centro, Edson Perini.

 O especialista diz que o consumo está concentrado nas regiões Centro-Sul e Leste da cidade. “Percebemos o predomínio do uso pelo sexo masculino. Em geral, as prescrições estão dentro dos padrões de dosagem, mas encontramos algumas superdosagens, que não deveriam existir”, alerta.

Pode ser o caso do pequeno M.A.G, de 9 anos. Aos 7, ao sofrer bullying na escola, desenvolveu um quadro de depressão e síndrome do pânico. Os médicos aconselharam os pais a dar Concerta ao garoto, que durante três meses sob o efeito da droga não dormia, ficou ansioso e perdeu o apetite. Aí receitaram, além da “droga da obediência”, antidepressivo e um remédio para abrir o apetite. Os pais recusaram. “O que estão fazendo com as nossas crianças? Como estão sendo diagnosticados esses pacientes? E os remédios, como estão sendo prescritos? É algo que está sendo dado para a ansiedade dos pais, dos educadores e dos psiquiatras para responder às inquietações dos meninos. Alguém está preocupado com isso?”, questiona Perini.


CORRENTE CONTRA

Causa insônia, cefaleia, alucinações, psicose e até casos de suicídio. Faz com que a criança fique quimicamente contida em si mesma, todos considerados sinais de toxicidade, indicando a retirada da droga. No sistema cardiovascular o remédio causa arritmia, taquicardia, hipertensão e parada cardíaca. O risco de morte súbita inexplicada em adolescentes é maior entre aqueles que tomam o remédio. Além disso, interfere no sistema endócrino, na secreção dos hormônios de crescimento e dos sexuais. É uma substância com o mesmo mecanismo de ação e as mesmas reações adversas da cocaína e das anfetaminas, segundo médicos que não adotam o medicamento.

Ponto crítico

Esses medicamentos são tão vilões quanto parecem?

Maria Aparecida Affonso Moysés doutora em medicina, professora titular de pediatria da Unicamp e membro fundadora do fórum de medicalização

SIM

O consumo exacerbado das “drogas da obediência” é o genocídio do futuro. Vivemos, sim, uma epidemia. A Ritalina e o Concerta são drogas derivadas da anfetamina e da cocaína. A medicação age aumentando a concentração de dopamina (neurotransmissor associado ao prazer). Como o remédio age por algumas horas, quando o efeito passa, tudo que o usuário quer é ter aquele prazer de volta. Quem usa esse estimulante fica com a atenção focada. A criança só consegue fazer uma coisa de cada vez, por isso, fica quimicamente contida, não questiona nem desobedece. Cada vez mais os pais estão sendo desapropriados pelos profissionais da saúde e da educação de ver seus filhos e de ouvir o que eles querem dizer. Então, se ele está agitado, desatento, impulsivo, vamos dar um remédio para que fique calado e dopado? É mais fácil lidar com um problema ‘médico’ a mudar o método de educação da criança. O TDAH pode ser o grito de socorro de uma criança que está vivendo um conflito em ambientes em torno dela. A pessoa que faz uso desse tipo de remédio tem de sete a 10 vezes mais chances de ter uma morte súbita inexplicada.

Fonte: Jornal Estado de Minas

Reação ao 'sossega leão'Sociedade se manifesta à forma abusiva de indicação do cloridrato de metilfenidato para manter crianças mais atentas. Remédio, apesar de necessário em muitos casos, tem sido prescrito em excesso

Luciane Evans

Preocupados com o rumo que o excesso de indicação de medicamentos para colocar um freio em crianças inquietas e desatentas tem tomado no país e, principalmente, em Minas Gerais, entidades de classe do estado, pais, pesquisadores e órgãos públicos começam a se manifestar e abrir ainda mais a discussão para a polêmica, que saiu do silêncio e passou a fazer barulho. Assim como vem mostrando a série de reportagens publicadas no Estado de Minas desde segunda-feira, as reações são divergentes: há os que alertam sobre os riscos do excesso de uso das medicações Concerta e Ritalina (à base de cloridrato de metilfenidato) e os que querem provar a importância que as pílulas têm para quem sofre do transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e temem um alarde da população diante dos questionamentos colocados pelos especialistas ouvidos na série. Mesmo com a repercussão do tema, um dos órgãos que deveria se manifestar, a Secretaria de Estado de Saúde (SES), não se pronunciou sobre assunto. 
As reportagens provocaram reações dos envolvidos quando se fala no distúrbio. O tema preocupou o Conselho Regional de Psicologia – Seção Minas Gerais que já articula ações para sensibilizar a sociedade tanto para os abusos na indicação de Concerta e Ritalina, quanto para a overdose de diagnósticos mal feitos. “Já tem um tempo que esses excessos estão preocupando nossos profissionais e impressionando o conselho. Sabemos que as vendas dos medicamentos estão altíssimas e os laboratórios escondem isso. Estamos preocupados com o discurso de que é possível ter uma medicação para que as crianças obedeçam. Os pais estão se rendendo a isso e, muitas vezes, tem havido mais danos do que benefícios”, destaca o membro da diretoria do conselho, Celso Renato Silva, que diz que os psicólogos estão se unindo para sensibilizar os pais de filhos com TDAH da importância de um tratamento bem estruturado. “Não somos contra a medicação, mas a banalização dela pode trazer consequências graves”, alerta.

Depois das matérias divulgadas, a Associação Médica de Minas Gerais registrou uma alta procura de pais de crianças e adolescentes por respostas, o que levou a Associação Mineira de Psiquiatria a enviar uma carta ao EM e aos leitores, esclarecendo que o tratamento medicamentoso não causa dependência química, “como é capaz de proteger contra isso”. “Há uma vasta literatura científica mostrando que as pessoas com TDAH tratadas com metilfenidato têm menor potencial de desenvolver uso de drogas e comportamento antissocial em relação às pessoas com TDAH não tratadas. Os benefícios na esfera acadêmica, emocional e até mesmo física são evidentes”, diz o texto assinado pelo psiquiatra e membro da entidade Arthur Kummer. 

O barulho também motivou o Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, composto por mais de 40 entidades, entre profissionais da educação, assistência social e saúde, a criar, ainda este ano em Belo Horizonte, um núcleo local, já presente em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. A polêmica também despertou pesquisadores a mostrar novos números. Defendendo a medicação como uma forma de proteger as novas gerações, a doutora em gestão do conhecimento e coordenadora do curso de pós-graduação em neurociência e psicanálise aplicada em educação da Faculdade São Camilo, Lucília Panisset, trouxe para a discussão dados que, segundo ela, são mais preocupantes do que os de consumo de Ritalina e Concerta no país, que passou de 71 mil caixas em 2000 para 2 milhões em 2009, colocando o Brasil como o segundo maior consumidor do mundo desses medicamentos, como mostrou a primeira reportagem da série.

“De 75% a 85% dos detentos da Europa e dos Estados Unidos foram diagnosticados com TDAH e não se trataram ou receberam o diagnóstico mais tarde. Outra pesquisa dos EUA mostra ainda que dos 3 mil infratores de lá, 60% tinham problemas com aprendizagem decorrentes do TDAH”, aponta Lucília. A especialista está fazendo um estudo sobre a prevalência do distúrbio em menores infratores em Minas Gerais. De acordo com ela, de modo geral, 13% das crianças estão propensas a repetir o ano escolar. “Com TDAH, esse percentual passa para 45%. Em um universo em que 40% dos menores roubam, com TDAH esse percentual sobe para 55%, motivados pela forte impulsividade. Por isso, a população tem que estar ciente da importância do tratamento dessa disfunção”, diz. 

ALVO DA POLÊMICA

Um dos pontos que mais chamaram atenção na série Geração controlada foi a declaração da professora titular de pediatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro-fundadora do Fórum de Medicalização, Maria Aparecida Affonso Moysés, na matéria publicada segunda-feira, quando a especialista disse que a Ritalina e o Concerta são derivados da anfetamina e da cocaína. A Associação Médica de Minas Gerais (AMMG) diz que a especialista foi sensacionalista e causou pânico e medo na sociedade. “Esses medicamentos não são derivados da cocaína”, informou a AMMG. Procurada novamente ontem, Maria Aparecida rebateu, atestando que a informação está na literatura farmacêutica. “É o mesmo mecanismo de ação sim. A discussão está no mundo todo. Se minha declaração irritou os médicos é porque abalou o autoritarismo deles. Eles passaram a ser questionados. A ciência tem que ser sempre discutida. É um serviço para a população.”

Depoimento 

F., de 9 anos - aluno do ensino fundamental
“Sempre tive boas notas, mas faço bagunça e não gosto muito de estudar. Odeio fazer dever de casa. Eu sempre questiono muito os professores e, por isso, eles disseram que eu era doente. Questionava porque não estava entendendo a matéria, mas acho que quem tem dúvida tem que perguntar, não é? Quando estou na sala presto atenção no recreio lá fora e no barulho do cortador de grama. Mas, com o remédio, prestei mais atenção na professora e parei de questioná-la. Fiquei mais quieto e na minha. Mas tinha dor de cabeça, enjoos e dor na barriga. Com isso, só conseguia ir na aula e não podia mais brincar. Não gosto das matérias da escola, prefiro a hora do recreio. Hoje, sem a medicação, estou mais feliz e continuo bagunceiro.” 

Alerta a professores e farmacêuticos
O Conselho Regional de Farmácia de Minas Gerais quer, a partir da série do Estado de Minas, orientar farmacêuticos do estado sobre os riscos e benefícios das medicações. “Existe, sim, um uso exacerbado desses remédios e isso nos preocupa. Como essas medicações estão sendo dispensadas?”, questiona o vice-presidente do conselho, Claudiney Ferreira. Uma outra orientação, também com tom de preocupação, vem da Secretaria de Estado de Educação, que, por meio de nota, diz que os professores devem estar sempre atentos às dificuldades de aprendizagem ou comportamentais dos alunos, que podem ter causas diversas. “Não é papel do professor realizar diagnósticos, mas buscar identificar possíveis problemas e orientar os pais para que procurem auxílio médico ou psicológico para seus filhos. Diante de um diagnóstico positivo, o professor deve orientar-se com um especialista para saber como lidar com aquele caso específico. Caso não se confirme o problema de saúde, cabe ao professor e a escola buscarem alternativas para solucionar as dificuldades apresentadas pelo aluno”, diz o texto. 

O alerta da Sociedade Mineira de Pediatria está para os diagnósticos bem feitos. “O mal existe e é importante que se façam exames corretos. Ao se ter a suspeita do distúrbio de TDAH, são vários testes a serem feitos: um para o TDAH e outros para avaliar a existência de outros transtornos associados. Somente um terço dos pacientes sofrem somente com o TDAH. Há os que têm problemas depressivos, de ansiedade, entre outros. As medicações são seguras, mas é preciso serem prescritas com responsabilidade”, comenta Marli Marra de Andrade, presidente do comitê de neuropediatria da entidade.

PAIS Muitos pais procuraram o jornal, por meio de telefonemas e e-mails, dando seus relatos. Uma dessas mães, muito preocupada com as reações dos medicamentos, quis que seu filho, F., de 9 anos, que tomou Ritalina por dois meses, mas parou por causa dos efeitos, contasse ao EM a sua história.

domingo, 8 de julho de 2012

Ser ou não ser marionete na política
Com a realização de mais um  pleito eleitoral , surgem algumas perguntas importantes: O brasileiro é um analfabeto político ou é um apolítico? O analfabeto político é o cidadão...
Com a realização de mais um  pleito eleitoral , surgem algumas perguntas importantes: O brasileiro é um analfabeto político ou é um apolítico?
O analfabeto político é o cidadão que é avesso à política e a todo e qualquer assunto a ela vinculado. E o apolítico, faz questão de afirmar que “não se envolve em política”, e que odeia a mesma. Mal sabe ele, que o apolítico é culpado por diversas mazelas sociais, tais como, desemprego, pobreza e prostituição.
O apolítico diz “esses políticos são todos iguais”, ou “este país nunca irá para frente”. Mas nem só de corruptos e vigaristas configura-se a política. O apolítico também não sabe que muitos dos governantes não querem cidadãos capazes de formular pensamentos e idéias críticas a respeito de sua sociedade, mas sim alienados, marionetes manipuláveis, que possam ser controlados.
Como a maioria da população, o apolítico costuma confundir “política” com “politicagem”. A primeira é a forma utilizada para governar, e administrar a sociedade e todas suas vertentes. A outra, por sua vez, é a arte de enganar, levar vantagem de maneira demagógica e desonesta por meio da política.
Para que um país possa desfrutar de um processo político válido, os alienados políticos – apolíticos – precisam ser a minoria, e o restante da população deve perceber que a fuga do debate e de assuntos que envolvem política é de extrema irresponsabilidade para qualquer país. Apenas agrava uma situação que muitas vezes já é ruim.
Pense, análise, questione, compare, debata, procure a origem, conheça o passado, busque informações, só conhecendo profundamente o seu candidato é que você poderá deixar a condição de marionete manipulável para se tornar um cidadão de verdade.
Por Bia Montes – Jornalista

terça-feira, 3 de julho de 2012


Patrus Ananias é indicado como candidato do PT em Belo Horizonte

Patrus Ananias foi ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo Lula. Foto: Valter Campanato/ABr
Patrus Ananias foi ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo Lula. Foto: Valter Campanato/ABr


A executiva nacional do PT decidiu nesta terça-feira 3 que o partido terá candidato próprio nas eleições municipais em Belo Horizonte. A cúpula petista indicou o ex-ministro do Desenvolvimento Social Patrus Ananias como candidato.
Os petistas mineiros romperam a aliança com Marcio Lacerda (PSB) no último sábado. Lacerda foi eleito numa chapa que, entre outros partidos, tinha PT e PSDB juntos na eleição de 2008. O PT desistiu de apoiar a reeleição do atual prefeito porque o PSB não quis fazer uma aliança nas eleições para a Câmara dos Vereadores. A decisão deve enfraquecer a bancada de vereadores petistas na capital.
Segundo a direção do partido, Lacerda não cumpriu com a sua promessa. “O Marcio Lacerda não cumpriu o acordo que estava escrito e, conforme noticiado pela imprensa mineira, a pedido do senador Aécio Neves (PSDB) e do governador (Antonio) Anastasia (PSDB)”, disse o presidente do PT, Rui Falcão, que é deputado estadual em São Paulo.
Após o rompimento com Lacerda, foi feita uma convenção às pressas que colocou o atual vice-prefeito Roberto Carvalho como candidato do PT. O partido agora deve convencer Carvalho a abdicar de sua candidatura à prefeitura até quinta-feira 5, data limite do registro na Justiça Eleitoral. Carvalho deve ir nesta quarta-feira a São Paulo para se reunir com a direção do partido.
A direção petista quer a formação de uma comissão estadual com Carvalho, Patrus e o deputado federal Miguel Correa, que seria o candidato à vice na chapa de Lacerda. Eles esperam que os três referendem a candidatura de Patrus até a data limite, quando deve ser feito um ato solene para lançar o candidato. Do contrário, a executiva do partido pode intervir e impor o nome de Patrus.
Carta Capital