quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Nomes das cidades de Minas Gerais.


  Nomes das cidades de Minas Gerais. Prezado amigo TEÓFILO OTONI.

Nesta VIÇOSA manhã de primavera, de onde se contempla um BELO HORIZONTE, um CAMPO BELO e MONTES CLAROS, e, ainda, neste ambiente FORMOSO de nossa terra, quando se pode contemplar também, pela madrugada, a ESTRELA DALVA, escrevo-lhe para colocá-lo a par dos últimos acontecimentos.

No âmbito familiar, a nossa prima LEOPOLDINA, ESPERA FELIZ dar a LUZ a seu primeiro filho que, se for homem, se chamará ASTOLFO DUTRA e JANUÁRIA, se mulher. Para cuidar do rebento, ela contará com abnegação da sua governanta MOEMA. Mas, enquanto ela aguarda seu bebê, lava roupa tranqüilamente nas BICAS existentes em um RIO NOVO, afluente do RIO ACIMA, que passa pelas terras de DONA EUZÉBIA, naquele LARANJAL, perto da CAPELA NOVA, onde, na hora do RECREIO, a meninada sobe na PONTE NOVA, para pescar LAMBARI e PIAU e soltar PAPAGAIOS.

A prima NATÉRCIA comprou uma casa na rua ANTONIO DIAS, perto da casa do ANTÔNIO CARLOS. Você já sabia? Orou a Jesus de NAZARENO em agradecimento, ajoelhada aos pés da SANTA CRUZ DO ESCALVADO no alto do MONTE SIÃO, que fica lá para as bandas da GALILEIA, às margens do MAR DE ESPANHA.

Lembra-se daquelas pedras da tia MARIA DA CRUZ que você queria comprar? Ela resolveu vendê-las, menos a PEDRA AZUL, porque ela diz ser a mais bonita e valiosa.

Quanto aos aspectos sociais e religiosos, temos novidades.


Na próxima semana, o CÔNEGO MARINHO, da diocese de VOLTA GRANDE, vai fazer a Festa de SÃO TOMAS DE AQUINO. Se você quiser aparecer será um grande prazer. A nossa prima VIRGINIA é quem será a responsável pelo evento. Vai ter missa celebrada pelo reverendo local, CÔNEGO JOÃO PIO, em honra ao Santíssimo SACRAMENTO. De manhã, o bispo DOM SILVÉRIO irá crismar as crianças. Depois haverá um show com o Agnaldo TIMOTEO e também com as TRÊS MARIAS. Em seguida, a Banda Musical SANTA BÁRBARA, sob a regência do maestro BUENO BRANDÃO, executará o GUARANI, de Carlos Gomes. Depois o Barão de COROMANDEL fará a saudação ao aniversariante. A festa era para ser no mês que vem, mas todas as datas do cantor estavam preenchidas. As primas SERICITA e AZURITA vão fazer a comida. Como prato principal teremos PERDIGÃO e PERDIZES à milanesa e PATOS DE MINAS ao molho pardo. De sobremesa teremos compota de MANGA, tendo sido escolhida a UBÁ, por ser mais saborosa, pêssego em CALDAS e, ainda, licor de PEQUI.

À noite, haverá um baile no OLIVEIRA Country Clube, ao som da orquestra do maestro MATIPÓ, tendo como principais solistas os renomados músicos IBIRACI ao saxofone e NEPOMUCENO ao trompete. Será uma boa ocasião para os convidados exercitarem os seus PASSOS ao ritmo de boleros e rumbas.


Mudando de assunto, na fazenda, fizemos algumas reformas.


O CURRAL DE DENTRO estava com o telhado estragado, com problemas no madeirame e tivemos que trocar as vigas. Desta vez colocamos CANDEIAS, por ser madeira de muita durabilidade, todas compradas do CORONEL XAVIER CHAVES. Com a sobra da madeira ainda reformei a PORTEIRINHA que dá entrada para o quintal. Estou também reformando a CAPELINHA de SENHORA DE OLIVEIRA, para comemorar o aniversário de LIMA DUARTE. Na festa estarão presentes o CORONEL MURTA, o PRESIDENTE WENCESLAU, o JOÃO MONLEVADE, o CORONEL FABRICIANO, o CAPITÃO ENÉAS, o BARÃO DE COCAIS, o Barão de BARBACENA, e várias outras personalidades. Dizem que até o TIRADENTES pretende comparecer. Mas ele ficou meio aborrecido, porque queria que a festa fosse em SÃO JOÃO DEL REI. Só não poderá comparecer o VISCONDE DO RIO BRANCO porque ele está em CAMPANHA política. Iremos cobrar um valor simbólico como entrada, para reverter em benefício dos desabrigados da chuva, mas apenas uma MOEDA de PRATA.

Vou lhe dar outra grande notícia.

Perto do ENGENHO NOVO, naqueles barrancos cheios de FORMIGA, um empregado nosso descobriu MINAS NOVAS de OURO BRANCO, OURO PRETO, ESMERALDAS e TOPAZIO, portanto será uma NOVA ERA e uma BOA ESPERANÇA para todos nós. Infelizmente, por causa dessa riqueza, a violência já começou a aparecer na região. Um homem de TRÊS CORAÇÕES foi morto por um garimpeiro, usando uma faca de TRÊS PONTAS, porque ele havia descoberto uma enorme TURMALINA e também uma pedra de RUBIM, de menor tamanho, mas muito valiosa.

Na área do desenvolvimento, a dona CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO, proprietária da usina açucareira de URUCÂNIA, quer aumentar a fábrica e incrementar a produção de açúcar, mas para isso precisará de mais energia elétrica. Assim, tem um projeto de construir uma usina hidroelétrica aproveitando as quedas dágua da CACHOEIRA DO CAMPO, formada pelo rio PIRANGA, mas o senhor RESENDE COSTA, que é o chefe do IBAMA na região, quer embargar a obra, alegando impacto ambiental.

Falarei agora da nossa justiça.

Chegou um JUIZ DE FORA, chamado EWBANK DA CÂMARA, para ocupar o lugar de BIAS FORTES, que terminou o seu mandato. Mas o CONSELHEIRO LAFAYETE, acompanhado de RAUL SOARES, pediu ao GOVERNADOR VALADARES para interceder junto ao PRESIDENTE BERNARDES para efetivar naquele cargo o SENADOR FIRMINO, que muito fez por nós. Ele foi DESCOBERTO ainda novo, tanto que sequer usava sapatos, usava ALPERCATAS, quando estava na companhia do CORONEL PACHECO, na famosa LAGOA DA PRATA, depois daquela GOIABEIRA e daquela árvore de JANAÚBA da fazenda POUSO ALEGRE, onde tem aquela VARGINHA, às margens do RIBEIRÃO VERMELHO.

Ele se tornou um homem sério e honesto, sendo de muito valor para a nossa causa.

Quanto à lagoa a que me referi, dizem que ela contém ÁGUA BOA, tanto que o Aleijadinho teria se curado dos seus males tomando banho nela, por isso passou a ser chamada de LAGOA SANTA. Dizem que um cego também lavou os olhos naquelas águas e voltou a enxergar, mas ele atribuiu esse milagre a SANTA LUZIA.

Outro dia encontrei o BETIM, a MARIA DA FÉ e a ALMENARA nadando nas ÁGUAS FORMOSAS da LAGOA DOURADA, e lhe mandaram lembranças. A lagoa fica nas terras de PEDRO LEOPOLDO, onde ainda tem mais SETE LAGOAS.

Avisam que estarão viajando para ALÉM PARAÍBA no próximo feriado de SANTOS DUMONT.

Também lhe mandam um grande abraço o DIOGO VASCONCELOS e o JACINTO.

Agora, vou lhe contar as fofocas.

O FRANCISCO SÁ teve um desentendimento com o JOÃO PINHEIRO por causa daquela LAJINHA que faz o SALTO DA DIVISA das terras dos dois fazendeiros com as terras da MARIANA, às margens do Rio PARACATU, porque dizem que ali tem muita MALACACHETA.

A coisa andou quente. Um deles, não sei qual, queria agredir o outro com um MACHADO. Ainda bem que o coronel MATEUS LEME chegou na hora e evitou o PATROCÍNIO de uma morte desnecessária, e, ainda, promoveu uma NOVA UNIÃO dos dois.

Os índios AIMORÉS tentaram invadir a reserva dos índios MAXACALIS, armados de ARCOS e flechas, por causa daquela reserva de JEQUITIBÁ existente no PÂNTANO DE SANTA CRUZ, mas, felizmente, foram contidos pelas tropas da Polícia FLORESTAL comandadas pelo MAJOR EZEQUIEL, evitando um massacre sem precedentes. Os presos foram levados para o QUARTEL GERAL.

E tem mais.

O ELOI MENDES me contou, confidencialmente, que o Dr. CARLOS CHAGAS está de caso com a CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS. A CÁSSIA, que é muito linguaruda, contou para a mulher dele, dona CRISTINA, que, imediatamente queria a separação e iria mudar-se para DIAMANTINA. Mas a dona MERCÊS, que é muito benquista por todos, conseguiu convencê-la a não tomar essa medida EXTREMA, e lhe propôs que aguardasse a chegada do seu primo, MARTINHO CAMPOS, que é um homem de mãos de FERROS, para ouvir o seu conselho. Ele achou que seria uma missão muito ESPINOSA, mas, ainda assim, aceitou o desafio. Sendo ele também um homem ponderado, sugeriu ao marido que pedisse PERDÕES à sua esposa, na presença do PADRE PARAÍSO, e assim foi feito e tudo teve um BONFIM.

Depois desta CONTAGEM dos fatos, damos graças a SENHORA DOS REMÉDIOS, SANTO ANTÔNIO DO AMPARO, SANTO ANTÔNIO DO GRAMA e SÃO TIAGO, que têm sempre protegido a nossa família, para que nossas lutas tenham sempre um BOM SUCESSO.UM PASSA TEMPO onde NASCEU DORPN

Terminando, receba um forte abraço do seu primo, MATIAS BARBOSA

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Os 11 pontos positivos que os Pais poderiam fazer para transformar ...o filho num verdadeiro homem, livre e responsável.


Os 11 pontos positivos que os Pais poderiam fazer para transformar ...o filho num verdadeiro homem, livre e responsável.

1.Não dê à criança tudo quanto ela queira. Desde pequena a criança deve aprender a ouvir um não. Aprendendo agora a dizer um não ao lícito, mais tarde ela saberá dizer também não ao ilícito.

2.Aponte os erros que seu filho comete.
Quando ele se embrenha nas sendas do mal, mostre o caminho do bem.
Nos momentos de perplexidade, esclareça sua dúvida.
Ensine e ajude seu filho a escolher entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Ajude-o a seguir o caminho do bem abraçando sempre a verdade.

3.Dê a seu filho também uma educação espiritual. Seu filho não é apenas corpo e sensibilidade, mas possui também uma essência não física; uma essência que precisa conhecer e amar as forças superiores da natureza.
Se ele perder a confiança no supremo, se perder o sentido da vida, se desconhecer o destino imortal do homem, se não esperar mais nada para depois da morte, só lhe resta um caminho a seguir: gozar a vida no momento presente e, para isto, irá servir-se de todos os meios, bons e maus, proibidos ou permitidos.
Um homem que não nutre esta essência é uma caricatura humana.
Um homem que não enxerga o eterno é um homem morto antes do tempo.

4.Não confunda as Coisas…
Quando seu filho deixar espalhados pelo chão roupas, sapatos, livros, brinquedos, faça-o apanhá-los. Mas faça como amor, bondade e carinho e não de maneira agressiva ou irritada.
Com gritos nunca se educa uma criança. Educa-se com energia, amor, carinho, bondade e compreensão.

5.Não brigue nem discuta na presença do filho.
Quando os pais discordarem ou se desentenderem, procurem evitar a discussão diante dos filhos. Falem e discutam a sós.
Brigas e discussões na presença dos filhos, além do mau exemplo que os pais dão, provocam na alma da criança conflitos de ordem emocional irreversíveis e muitas vezes de graves conseqüências.
A harmonia e união entre os pais revertem em benefício para os próprios filhos.

6.Não dê a seu filho quanto dinheiro ele pedir.
Quem não se contenta com pouco, nem o muito o satisfará jamais.
O dinheiro fácil na mão do seu filho abre caminho para muitos erros, pois a riqueza mal empregada abre as portas do mal.
Seu filho deve aprender quanto custa ganhar dinheiro.
Se desde pequeno ele não sabe quanto custa o dinheiro, ele só deseja uma coisa na vida: ganhar muito dinheiro com o mínimo de esforço e gozar o máximo a vida.
Dinheiro fácil nas mãos do seu filho leva-o a confiar mais no poder da moeda do que em sua força de vontade, em sua dignidade moral e capacidade intelectual.
Faça com que seu filho mereça o dinheiro que recebe.

7.Não satisfaça todos os desejos e caprichos do seu filho em matéria de comida, bebida e conforto.
Ele deve aprender a fazer sacrifício, a renunciar um gosto pessoal, a dizer um não a um capricho e deixar de ser voluntarioso.
O comodismo enterra todas as aspirações humanas e é o maior obstáculo do progresso.
Formar a vontade do filho não é fazer todas as suas vontades.
Forme a vontade dele para que rejeite sempre o mal e queira sempre só o bem.

8.Quando seu filho entrar em conflito com professores, polícia, vizinhos e colegas, não tome seu partido sem antes examinar bem o fato e ver de que lado está a razão.
Um erro é tomar sempre o partido do filho apenas por ser filho, sem procurar saber a origem do conflito e ver com quem está a razão.
É preciso ver, analisar, julgar e dar razão para quem a merece.
Não é somente o filho do vizinho que pode errar; o seu também está sujeito ao erro.
Ninguém é perfeito; seu filho também está dentro desta regra.
Seja justo e dê razão a quem tem de fato.

9.Olhos Abertos significa atenção…
Quando ele entrar numa contenda mais séria, não o desculpe com estas palavras: “Ele sempre foi impossivel; ele é assim mesmo.”
Isto fará com que seu filho permaneça no erro e abrirá caminho para faltas mais graves, pois ele sabe que pode contar sempre com a cumplicidade indulgente dos pais. A indulgência excessiva é sempre cúmplice do crime.
Seja indulgente, mas sempre dentro da ordem, da energia bondosa e da disciplina.

10.Não faça comparações das virtudes e dotes do seu filho em relação aos outros.
Fazendo isto, você estará implantando nele o vírus da intolerância, a discriminação pessoal e social, e o menosprezo pelos demais.
Um elogio deve ser feito de maneira discreta, a sós, e com muito cuidado.
Os pais, costumam rotular os filhos de acordo com sua própria conveniência, e isto abre espaço para que vejam nos filhos, qualidades que muitas vezes não possuem, causando frustrações nos mesmos com o tempo.

11.Qualquer tipo de vício é prejudicial para os adultos e muito mais às crianças.
Se tiver algum vício, lute para livrar-se dele, e o faça diante do seu filho, sempre demonstrando a ele os maléficios do mesmo e sua luta pela liberdade.
Sua criança não mereçe compartilhar de um capricho danoso como o seu.
Se você tem amor de fato por ele, livre-se do vício, só, e apenas desse modo, poderá lhe cobrar mais tarde com eficiência, caso ele se caia numa dessas armadilhas.
Para o filho, o exemplo de probidade dado pelo pai é mais importante do que todas as opiniões que ele vai encontrar pelo resto da sua vida.

12.Feito tudo isso, prepare-se para uma vida de harmonia, alegrias e felicidade.
É o seu merecido destino.

Fonte: Site de Dicas – Adaptado por Alberto Filho.

sábado, 13 de novembro de 2010

Penalidade para juízes no Brasil



Penalidade para juízes no Brasil

Muito se fala da impunidade dos políticos no Brasil. A crítica não é sem razão, haja vista que,como sabemos,ações penais contra parlamentares e titulares de cargos do Executivo, normalmente, não chegam ao fim (com uma sentença); antes disso, os processos se arrastam por anos e acabam sendo extintos devido a questiúnculas processuais ou mesmo por prescrição.

Não obstante, há um outro grupo de “intocáveis” no país. Os magistrados gozam de uma série de imunidades, pensadas não visando criar privilégios, mas, sim, garantir que o exercício da função se dê da forma mais imparcial possível. Assim,fala-se nas garantias da vitaliciedade, da inamovibilidade e na irredutibilidade dos vencimentos. Até aí, nenhum problema: as garantias são fundamentais para garantir, como dissemos, que o juiz julgue sem temer represálias do Estado, do poder econômico ou de qualquer outra influência externa.

Entretanto, a partir disso, a Lei de Organização da Magistratura Nacional (LOMAN), que é de 1979, ao tratar das penalidades aplicáveis aos juízes em razão de “deslizes” cometidos por estes, é muito branda. Ela foi pensada para uma época em que nem se cogitava falar-se em “corrupção no Judiciário” ou de controle sobre certas manifestações judiciais. Cabe às Corregedorias e ao Conselho Nacional de Justiça o processamento contra denúncias de desvios éticos dos magistrados.

Ora, ainda que juízes tenham liberdade de convencimento, isso não significa que possam decidir “de qualquer forma”; eles estão adstritos à Constituição, às leis e ao caso (e às razões/provas trazidas pelas partes) que têm a decidir.
Houve um juiz que, em uma queixa de injúria,disse ao autor, um jogador de futebol, que se ele fosse homossexual, deveria fundar uma liga própria, já que o futebol (“normal”) era coisa de “macho”. Foi feita representação contra o magistrado,que recebeu a seguinte pena: o Tribunal de São Paulo lhe aplicou uma “censura”. O que significa isso? Apenas que ele não pode ter seu nome na lista de promoção por merecimento pelo prazo de um ano a partir da aplicação da pena.

Essa semana tivemos um outro exemplo: foi condenado no CNJ, por 9 votos contra 6, um juiz de Sete Lagoas (MG), que, em uma decisão, afirmou que a Lei Maria da Penha era obra do “diabo” e que inverteria a lei natural de Deus pela qual homens são superiores às mulheres. Qual a “pena”que lhe foi dada? Ele ficará a f a s t a d o de suas funções por 2 anos, com recebimento proporcional de vencimentos.

Há que se repensar a forma/dosagem das penas contra magistrados que, no uso de suas funções, perpetuam ou pregam o preconceito e a discriminação. Não é aceitável, num Estado Democrático de Direito, que um servidor público afirme em uma decisão: “É assim que eu penso...e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo!”.Há aí, de fato, a privatização de um cargo público,que não lhe pertence, mas que apenas ocupa por certo tempo, dado o princípio da impessoalidade na Administração Pública
Alexandre Gustavo Melo Franco Bahia

Alexandre Gustavo Melo Franco Bahia . Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Professor dos cursos de Graduação e Mestrado da FDSM. Advogado.Autor do livro: Recursos Extraordinários no STF e no STF:conflito entre interesses público e privado, pela Editora Juruá.E - m a i l: alexprocesso@gmail.com

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Inversão de valores


A cada dia, o que era certo parece tornar-se errado e o errado parece tornar-se certo.

Quando alguém se esforça para ser uma pessoa mais dócil e humana, pode-se notar que estranhamente ela passará a ser taxada de tola ou merecedora de descrédito. É, na verdade, antagônico e absurdo. Com freqüência, percebemos que a conduta de quebrar regras e desrespeitar normas é objeto de admiração de muitas pessoas. É perceptível no trabalho, funcionários que seriam maus exemplos, serem "seguidos" ou copiados por outros funcionários. Quando o comportamento em vez de receber reprovação, recebe admiração e ainda é imitado, torna explícito o absurdo da inversão de valores que vivenciamos.

Se há um programa televisivo que consiste em observar pessoas se relacionando e convivendo em um lugar isoladamente, percebe-se que uns personagens optam por um comportamento "rebelde" ou indisciplinado para atrair simpatia, e o pior, obtém sucesso, tornam-se os vencedores. Porque se mostraram "maus", agressivos ou impetuosos atraíram afeto e admiração. Se, indisciplina e rebeldia geram simpatia, o que pensar dos que prezam a disciplina e subordinação?

Não é o objetivo deste artigo criticar ou condenar o admirador ou o transgressor, mas sim, identificar aquilo que todos inconscientemente estão sujeitos a fazer; menosprezar o ético e enaltecer o reprovável.

Em uma universidade, torna-se clara a distinção que se faz entre condutas diferentes. Há aqueles que se dedicam aos estudos, perguntam, participam e prestam atenção às aulas, em contra partida, há os que fazem exatamente o oposto; freqüentemente ausentes das aulas por preferirem bares, e trocam grupos de estudo, por qualquer coisa que seja inútil e com aparência de indisciplina.

Não faz muito tempo, que os pais ou avós ensinavam que os homens deviam ser cavalheiros com as mulheres, ou que as pessoas deviam se respeitar. Havia o conceito de que era fundamental ao ser humano a generosidade e cordialidade, no entanto, hoje, qualquer um está sujeito a ser interpretado como antiquado ou ultrapassado se assim o fizer.

Quando alguém é notado em ações de bondade, é definido como pateta e alguém que age maldosamente, por vezes recebe aplausos, teremos, com certeza, um prognóstico de que a sociedade caminha a passos largos para um mundo amoral e repleto de conflitos.

Todos os problemas da inversão de valores apontados, refletem diretamente na convivência de qualquer grupo social. Notar-se-á na família, filhos que não respeitam os pais, e se o fizerem , serão até criticados pelos seus amigos. Teremos casais sem princípios essenciais a uma convivência duradoura e saudável. Não haverá renúncia, compreensão e bem-estar entre cônjuges, pois o homem que renunciar será tido por "dominado" e a mulher se o fizer será titulada por "Amélia".

O bom funcionário será "puxa-saco" e o negligente será exemplar. O cônjuge infiel será bem-visto e o fiel será subestimado.

Os valores são violentados todos os dias por diversos meios e atitudes nos relacionamentos. A todo o momento as pessoas são reprimidas por agirem com cordialidade e simultaneamente incentivadas a transgredirem os princípios morais.

Fica fácil entender por que Rui Barbosa disse: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

Não se pode ignorar a grande influência dos meios de comunicação na divulgação das contravenções e a quebra de princípios como comportamento modelo.

É patente, em atuações de novelas e filmes, os maus receberem simpatia e os bons serem ridicularizados. Em Hollywood, os viciados e foras-da-lei são alvos de apreço e como mencionado anteriormente, em reality-shows os bad-boys são favoritos a vencedores.

Dependerá dos líderes, oradores, conselheiros, escritores e agentes de posições similares, propagar os bons conceitos e incutir o repúdio à má conduta, bem como reconhecer com apreço os bons costumes.

A inversão de valores compromete o convívio social e deve ser combatida com rigor por meio de pessoas comprometidas com o desenvolvimento humano e o progresso social.

Adriano Martins Pinheiro

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O dólar definitivamente furado


Coisas da Política
10-11-10
Novas Ideias- Francisco Barreira

O dólar definitivamente furado

Atenção! Há poucas horas, em Seul, o ministro da Fazenda, Guido Mantega formalizou a proposta de criação de uma nova moeda padrão em substituição ao Dólar.

Mundo Financeiro e os próprios norte-americanos já concluíram que o Dólar tornou-se imprestável como moeda padrão. Por isso, nesta reunião dos G-20 (as vinte maiores economias do Planeta), que se inicia hoje em Seul, será proposta a criação de uma nova moda padrão. O Brasil e a China já haviam sugerido , há oito meses, que esta nova moeda, de transição e usada apenas nas transações comerciais entre países, fosse administrada (emitida) pelo FMI.

Nas primeiras três décadas do século a Grã Bretanha vai cedendo o posto de primeira potência mundial para os Estados Unidos. Com o fim da Guerra, em 45, os EUA emergem como a maior potência indiscutida. A partir de 1949, quando detona seus primeira bomba atômica, a ex-União Soviética contesta militarmente essa hegemonia norte-americana, até derreter no início dos anos 80, vítima de sua própria ditadura burocrática e idiotizada.

Em 11 de Setembro de e 2011 (início da Grande Crise), vitimas de sua cobiça desenfreada e da leitura equivocada da teoria econômica liberal, os Estados Unidos consumaram sua decadência e sua hegemonia passou a depender exclusivamente de seu descomunal arsenal militar. Mas o Mundo já vive uma fase de poder multipolar.

Isto, para dizer, em poucas linhas, que o Dólar perdeu as condições mínimas elementares para se manter como moeda padrão aceita universalmente como valor de referência nas trocas comerciais. O Dólar está definitivamente furado, porque perdeu fidúcia que no jargão bancário quer dizer, simplesmente, credibilidade.

Em que diz isso, querido leitor, não sou eu, mas nada menos que o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick que em artigo do último dia 8, no Financial Times propôs a volta do Padrão Ouro ao sistema monetário internacional. A proposta, diga-se, além de inusitada é ingênua, porque qualquer especialista sabe que todo o ouro do Mundo, fundido em barras, cabe nos porões de um cargueiro de porte médio. Ou seja , por uma simples questão de volume, o ouro é incompatível com tão gigantesca tarefa.

Aliás, está incompatibilidade foi declarada pelos próprios norte-americanos, quando, em 1971, Richard Nixon, rompeu unilateralmente com o Padrão Ouro e reconheceu implicitamente que as reservas americanas do metal, depositadas no famoso Fort Knox não eram suficientes para dar lastro à moeda em circulação.

Sobre o mesmo tema, leia também as colunas Última Hora e Para Entender a Crise.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tributo aos militantes


Tributo aos militantes
Esse texto é para louvar e agradecer à militância. Para tanto, escolhi um dos nossos “paradigmáticos”. Um militante que nessa luta foi extraordinário: José de Abreu. O cidadão, não o ator. Foi estimulante, comovente testemunhar a dedicação, a entrega desse homem à nossa causa.


- por Lula Miranda, na Agência Carta Maior

Nós vencemos. Eles perderam. Simples assim. Aproveitemos à exaustão o deleite e as delícias dessa sagrada vitória. Não lhes daremos “o gosto” de um suposto e extemporâneo “terceiro turno”. Não tripudiaremos, decerto, pois não é da nossa índole. Porém tampouco aceitaremos ou permitiremos que tentem macular nossa alegria, nossa folia, novamente, com suas infâmias, com esse abjeto racismo e separatismo que agora nos oferecem em sua bandeja de misérias. Não. Esse lixo não nos serve. Esse lixo não serve ao Brasil que ora, com muito zelo, construímos. Vivemos num Estado de Direto. As instituições darão conta desses infames.

Para que fique bem claro, de uma vez por todas: quem somos “nós”, quem são “eles”. Nós somos os “militantes da utopia”, os “justos”, generosos, fraternos, humanistas; somos os guardiões e militantes de uma causa que preconiza mais distribuição de renda, mais Bolsa Família, mais empregos, Luz para Todos, mais Minha Casa Minha Vida,uma maior presença do Estado na economia, mais investimentos em infra-estrutura e saneamento básico, saúde, educação e segurança, mais cidadania.

Repito, mais uma vez, para que fique cristalino: nós vencemos. O nosso projeto foi aprovado pela maioria esmagadora dos brasileiros, de Norte a Sul; do Nordeste ao Sudeste. Dilma Vana Rousseff foi eleita a primeira mulher presidente da República do Brasil. Dará continuidade e, mais que isso, aperfeiçoará o legado de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente-operário.

Já eles, os perdedores, em sua esmagadora maioria, são/representam a “vanguarda do atraso”, o fundamentalismo religioso, o ódio, todo tipo de preconceito, o separatismo, a privatização, ou seja, a entrega do Estado a interesses privados, o cruel “higienismo” contra os desassistidos. Representam, pois, o destampatório de todo mal, a Pandora inesgotável – como bem registrou em artigo o meu valoroso conterrâneo Leandro Fortes. Eles simbolizam os “bichos escrotos” que solertes saíram dos esgotos, das sombras com a pretensão de arruinar a nossa festa e, por conseguinte, o nosso projeto de um país para todos os brasileiros.

Mas não conseguiram. A esperança venceu o medo, novamente; a verdade venceu a mentira, com altivez e galhardia. A catequese amorosa, que é inerente a nossa natureza, e que aperfeiçoamos com Leonardo Boff, Frei Betto e tantos outros, venceu sobejamente a pregação odienta dos nossos antagonistas. Nós vencemos – nunca é demais reiterar. Nós vencemos!

Vencemos [palavra saborosa], sobretudo, graças a nossa militância: fraterna, valente, aguerrida, desinteressada, pois idealista, amorosa. Foi emocionante rever/reconhecer os companheiros nas ruas de todo o país, panfletando, agitando as bandeiras da Dilma com fervor cívico, como há muito não se via. Como - ou melhor, por quê?! - não chorar diante daquela histórica manifestação de apoio dos artistas e intelectuais no Teatro Casagrande no RJ? Ou na manifestação dos juristas e professores na PUC-SP ou dos intelectuais e professores no campus da USP, por exemplo? E os cem mil com Lula em Pernambuco?! Como segurar as lágrimas ao ouvir a declaração de apoio de Marilena Chauí? Como não vibrar com o discurso flamejante de Luiza Erundina? Não tenho dúvida: os melhores estavam (e sempre estarão) do nosso lado. Caminharemos juntos, sempre em frente, buscando um auspicioso/generoso porvir.

Mas esse texto é para louvar e agradecer à militância. Para tanto, escolhi um dos nossos “paradigmáticos”. Um militante que nessa luta foi extraordinário: José de Abreu. O cidadão, não o ator. Foi estimulante, comovente testemunhar a dedicação, a entrega desse homem à nossa causa. Vê-lo nas ruas, em sua pregação afetuosa no twitter ou mesmo no 1º Encontro dos Blogueiros Progressistas. Não à toa esteve no palco na noite da vitória em Brasília – chorava copiosamente –, não simplesmente na condição de “papagaio de pirata” da presidente eleita, mas nos representando, militantes que fomos/somos . O Zé ali era “nós na fita”. Ah, o Zé Bigorna foi sensacional, singular.

Os blogueiros progressistas [prefiro, você bem o sabe, “de esquerda”] também tiveram um papel fundamental – assim como seus leitores e comentaristas. Alguns jornalistas também se recusaram a se associar aos infames sabujos da velha mídia e não se omitiram. Cito aqui alguns deles, jornalistas, blogueiros, leitores/comentaristas, como uma forma de registrar o nosso agradecimento e homenagem: Rodrigo Vianna (fundamental!), Altamiro Borges (grande Miro!), Luis Carlos Azenha (a sagacidade em pessoa), Eduardo Guimarães (incansável), Paulo Henrique Amorim (um guerreiro!), Luis Nassif, Brizola Neto, Renato Rovai (o que mais “furou”, digo, deu em primeira mão,resultados de pesquisas), Deputado Paulo Teixeira, Miguel do Rosário, Maringone, “Seu Cloaca”, André Lux, Jorge Furtado, Idelber Avelar, Celso Lungaretti, Conceição Oliveira, Argemiro Ferreira, Izaías Almada, Marcelo Sales, Flávio Aguiar, Palhares, Emir Sader (o nosso “emir”), Gilson Caroni Filho (um virtuose da “logopéia”), Antônio Martins (outro virtuose), Venício Lima, Laurindo Leal Filho, Mino Carta, Bob Fernandes, Marco Aurélio Mello, Luis Favre, Maurício Thuswohl, Maria Frô, “Na Maria”, Marco Weissheimer, Leonardo Sakamoto, Francisco Carlos Teixeira, Luis Carlos Lopes, Maria Inês Nassif, pessoal do blog Amigos do Presidente, Grupo Beatrice, equipe do Observatório da Imprensa, pessoal da Rede Brasil Atual, pessoal da Caros Amigos, Stanley Burburinho, Gunter Zibell, Professor Hariovaldo, Malu Marcondes Ferreira, Guimarães s v, Messias Franca (de Feira de Santana, Bahia)...

São tantos os nomes/talentos que se irmanaram nessa nossa vitória que dá um orgulho danado de estar ao lado dessa gente tão valorosa. Não dá não?

São tantos os nomes desse nosso aguerrido “exército”. Mas certamente faltou elencar o seu, estimado leitor. Portanto, caso seu nome ainda não conste dessa minha imperfeita lista [na verdade, um rascunho inicial], é só subscrever abaixo, pois, ao final, complementarei esse elenco de nomes/talentos e farei um poema-objeto (um cartaz virtual, algo assim) com o registro de todos que, de alguma maneira/forma, contribuíram para essa vitória da cidadania; seja como militante nas ruas, seja como jornalista, articulista, blogueiro (“sujo” ou “limpinho”), como leitor, comentarista etc. Qualquer maneira de entrega/dedicação valeu a pena - literalmente.

Se você é um dos nossos, um dos vitoriosos, subscreva abaixo.

Parabéns! Você ajudou a vencer a infâmia, o ódio, a maledicência. Parabéns! Você ajudou a eleger a primeira presidente do Brasil!
Receba os meus/nossos sinceros cumprimentos e agradecimentos. Celebre bastante até o dia da posse. Não se deixe incomodar pelos desmancha-prazeres [os que, insanos, clamam por um 3º turno]. Certamente nos encontraremos novamente em Brasília.

A luta, porém, sabemos, não acaba nunca. Afinal, nunca é demasiado lembrar, militamos em nome da utopia.

Viva a Dilma! Viva Lula! Viva o Brasil!

Lula Miranda é poeta e cronista. Foi um dos nomes da poesia marginal na Bahia na década de 1980. Publica artigos em veículos da chamada imprensa alternativa, tais como Carta Maior, Caros Amigos, Observatório da Imprensa, Fazendo Média e blogs de esquerda.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O fim do mundo é sempre o começo de outro


O fim do mundo é sempre o começo de outro

Estamos às vésperas de mais um espetáculo paradoxalmente triunfante e deprimente do império da democracia liberal. Esse espetáculo, preparado para manter a ordem das coisas do universo, entretanto, deixa uma brecha. E é nesse espaço estreito de liberalidade imaginária que temos a (in)feliz oportunidade de combater o bom combate, de transformar um instrumento de controle da vida dos povos e das pessoas em ferramenta de subversão fantástica e inadmissível. E eu gosto do inadmissível: nosso Deus é o Deus do impossível, do inadmissível.

Primeiro, deixe-me iluminar você com o clarão desta verdade: não há posição que não seja política, e o movimento político mais incisivo e mais engajado que você pode cometer é a suposição de neutralidade. Nunca se está neutro. A neutralidade é a vergonha de se declarar do lado do opressor. O mais anárquico não é o mais indiferente; pelo contrário. De outro lado, também não há verdade que não seja circunstancial: a liberdade política é um exercício localizado na história, com todas as suas contradições e impasses, e não uma sensação vaga de suposta independência! Eu não vim trazer a neutralidade (paz), vim trazer a parcialidade (a espada).

Se você está neutro, saiba que está de um lado. E eu vou mostrar o meu, agora: o lado dos que estão debaixo.

Política deve ser um ato de tesão! Eu exijo política com tara! A política gira ao redor da resistência do gozo e da construção de oportunidades de se gozar a vida da forma mais livre possível; e como relação de poder que é, há sempre um quê de liberador, de subversivo no gozo e na política: o prazer, a possibilidade de acessá-lo e de mantê-lo, é o fundamento do ato político. O prazer está ligado àquilo que ultrapassa a simples demanda fisiológica: a necessidade do estômago é de comer, mas a língua da gente não quer só comida; a gente quer comida temperada, cheirosa, farta, saborosa. A gente não quer só casar, a gente quer beijar ardentemente, quer companhia carinhosa, quer trepar com amor incandescente. O desejo é da ordem da festa! A mais bonita das contra-doutrinas políticas é a do evangelho, que liberta almas na sua raiz, ou seja, nos corpos. O reino de Deus é uma esquerda libidinosa baseada na liberdade do corpo e no desejo ardente, na fome e sede de justiça; é o Reino de um Deus dos impossíveis, um Deus do inadmissível.

Escandalosamente, o Brasil foi construído ao longo de cinco séculos de forma a permitir que apenas uma minúscula parcela do seu povo pudesse desejar e gozar desses prazeres festivos, sobre e a partir do labor, do suor e do sangue da grande maioria: aquela maioria apartada mas trituradas pelos círculos do poder; aquela maioria negra, analfabeta e pobre que não podia senão aceitar a comida que lhe davam; aquela maioria da senzala, das prisões e das favelas; aquela maioria que devia trabalhar apenas, trabalhar para os outros; aquela maioria empobrecida que, hoje, quando recebe o Bolsa-Família, é tida por vagabunda.

Inadmissivelmente, de repente, essa maioria - vagabunda, preta e pobre - pela primeira vez, na história dessa nação precária, tem a voz liberada e a possibilidade de comer e gastar o seu dinheiro: aquilo que era impossível, começa a acontecer!

Aí vem você argumentar que é o Estado - o monstro opressor - que dá dinheiro dos contribuintes para os miseráveis gastarem com cachaça e não trabalharem - e eu lhe pergunto três coisas: por que é inadmissível que os pobres não possam ser preferidos pelo governo, pela igreja, pelo Estado, por quem quer que seja, se do ponto de vista do cara mais revolucionário que já houve não há nunca imparcialidade, são as vítimas sempre a serem preferidas? E, além do mais, se o governo está fazendo aquilo que você deveria fazer – dar o dinheiro aos pobres? De onde saiu a regra de que pobres não podem ter seu dinheiro de forma autônoma? A regra de que eles precisam ser porteiros, empregadas domésticas, babás, motoristas, de que eles só valem quando vendem sua força, seu vigor e seu saber prático para o gozo dos poucos de sempre? De onde saiu a regra de que os pobres não podem gastar seu pouco dinheiro da forma que bem entenderem, assim como eu e você gastamos insensatamente o nosso salário?

O princípio mais demoníaco dos últimos dois séculos é o da igualdade de oportunidade. Igualdade de oportunidade é como colocar pra concorrer numa prova de atletismo um rapaz de cadeira de rodas e um atleta. As oportunidades são iguais, as condições, não. Além do mais não gosto da igualdade por si mesma: eu gosto das diferenças! (Veja, eu não disse desigualdade – que é terrível – mas diferenças). E a luta por igualdade é justamente a luta para que os diferentes possam igualmente manifestar sua vida e seu modo de estar, de falar, de cantar, de abraçar, de se vestir, de dançar e de tomar banho. Nesse caso, eu quero um Estado que trate os desiguais como desiguais: a quem tem menos (dinheiro, poder, saber, espaço) seja dado mais e primeiro; quem tem mais, já têm sua recompensa! Eu quero um país das cotas raciais e do ProUni (porque negros e brancos, alunos de escolas niveladas e de escolas modelares, nunca tiveram igualdade de condições e não teriam oportunidades iguais), quero o país da Bolsa-Família (porque pobres e ricos nunca comeram as mesmas coisas e não poderiam gozar do mesmo sabor de gastar o seu dinheiro como bem entendem), quero o país das comunidades quilombolas, das reservas indígenas, dos assentamentos bem-estruturados, da agricultura familiar camponesa (porque esses povos nunca tiveram as mesmas condições dos brancos, ricos, urbanos e agroindustriais).

Note-se que isso não foi simples doação do governo Lula, muitas dessas foram conquistas populares, com esforço e peleja, permitidas, vá lá, pelo ambiente de democracia participativa e de inclusão que o governo Lula propiciou, na contramão do pensamento reacionário e sexista que se manifestava em todos nós, mas beneficiava poucos.

O Brasil, por mais carnavalescamente anárquico que pareça, desencadeou um processo de autonomia, a partir da tomada de partido. Este país não ficou neutro, tomou partido. De maneira atabalhoada e ainda um tanto capenga, o Brasil liderou nos últimos anos o ensaio dos primeiros passos rumo a uma nova configuração das relações de poder no mundo, não mais baseadas unicamente no desempenho econômico-financeiro, nem na pujança fálico-militar, mas na simples e inadmissível fraternidade histórica , travestida de interesses pequenos, que apenas de pretexto serviam de disfarce. Nos últimos oito anos o Brasil foi reconhecido como o povo que soube dialogar com a minúscula Bolívia, defender do cacetete a simplória Honduras, tentar compreender o complexo e contraditório processo de Cuba, olhar nos olhos da besta imperial do Norte, chamar à conversa aqueles que foram carimbados de trogloditas no Oriente Médio (e que, ao que tudo indica, assumiram essa posição), se posicionar claramente contra o massacre palestino e denunciar com um sorriso irônico as incoerências da moral política senatorial do capitalismo hegemônico. E isso é inadmissível, e o nosso é o reino do inadmissível!

Nos últimos oito anos, a passos lentos, mas visíveis, essa nação imprecisa e vulgarmente plural começou a ensaiar o princípio da parcialidade bíblica; e com a contradição de usar o instrumental que se tinha disponível (leia-se congresso corruptos, burocracia reacionária e alianças fedorentas), o que deu no mensalão, por exemplo. Se você vier me dizer que o governo Lula se corrompeu da mesma forma dos outros, eu lhe pergunto: você é imparcial a ponto de dizer que pagar para o congresso aprovar uma emenda da reeleição, como fez FHC em 1996, é a mesma coisa que pagar pra o congresso aprovar medidas e reformas que permitissem uma maior rapidez na distribuição do dinheiro do país com aqueles que sempre tinham sido vítimas? De onde vem a voz que se escandaliza com esses atos que antes eram feitos para beneficiar os poucos de sempre e então estava sendo feito para beneficiar uma multidão? De onde vem a moral da Imprensa pra acusar o mensalão? De quem são os órgãos da Imprensa? Do povo, dos mais pobres, das vítimas? São seus?

O mais inadmissível (e nosso Deus é o Deus do inadmissível) é que, acompanhando o processo de dar dinheiro a quem não tinha nada, para que, podendo sanar as necessidades do corpo, os miseráveis pudessem chegar a desejar algo (e a política só funciona com desejo, como dissemos acima), nos últimos anos, milhares de camponeses, trabalhadores, pequenos comerciantes, jovens universitários começaram a se intrometer nos espaços de decisão do dinheiro público: conselhos, fóruns deliberativos, povo dando pitaco, gente apequenada que pode agora apontar e tratar de igual para igual o prefeito, o vereador e o secretário e dizer que o dinheiro do governo vai pra isso e não pr’aquilo. Aí vem você me dizer que os caciques do PT e aliados usam política pública para se abarrotar de dinheiro e poder: eu lhe digo que esses padecerão do fogo e que não há liberdade em ambiente puro, que a liberdade é um exercício do erro, da queda e da lama, que é infinitamente melhor um governo que permite o diálogo e a participação do que um que prepara às escondidas coisas obscuras e que no claro do dia faz calar a voz dos que reivindicam seus direitos. Ou você gosta das balas e cacetetes que o simpático Serra usou para negociar com os professores de São Paulo?

Na verdade, eu quero o Não-Estado, o Despoder; eu quero a festa de corpos livres, de desejos ardentes, de danças, de músicas, de comida farta, de uma mesa única com todo mundo junto; mas essa realidade que parece impossível, é o Reino do Deus do impossível, que trabalha por nossas mãos, sua por nossos poros e chora com nossos prantos, e que não acontecerá sem a luta incessante contra aqueles que querem acumular, que criam barreiras de separação, que não gostam da inclusão de mais gente, que não querem a participação dos pobres, dos pretos, dos bêbados, dos analfabetos, das crianças, dos poetas e das mullheres! Por ora, enquanto o Reino não chega, só devemos manifestar a festa da vida em nossa vida, junto de quem está perto de nós, contra a discriminação e a repressão, pela liberdade, pelas diferenças, pela diversidade. Agora, o momento é de não permitir que as forças reacionárias do escuro impeçam a aurora de continuar a clarear o dia. A salvação não virá do governo, mas a continuidade de um governo que permite a liberdade ampla da expressão, que distribui renda, que tira pobres da pobreza e dá voz a quem não tinha é fundamental para destruirmos esse Brasil capenga, dividido e opressivo e tirar de dentro dele o outro Brasil vibrante, colorido, dançante e flamejante, contra o poder e com sabor de vida! Não por José Serra, nem por Dilma Roussef, que são apenas gente, cheia de papéis a cumprirem. Não eles, mas pelos projetos que eles podem levar adiante.

O que quero é um Brasil que se reconheça como frátria, de vários povos em diálogo, de escolas onde se ensine a ler, a brincar e a amar, de hospitais que tratem de gente, de gente que coma bem e adoeça menos e não precise tanto de hospitais, de gente que possa dar pitaco nos rumos de sua cidade, de gente que more bem no sítio e nas cidades, de cidades menos poluídas, de cidades com periferias que não sejam favelas, de homens que possam liberar-se e de mulheres que possam governar seus corpos e, agora, pela primeira vez, governar o país! Agora é Dilma, é a vez da mulher! Matriarcado de Pindorama!